Delegada que perdeu os dois filhos alerta para violência vicária e culpa imposta às mães

'Meu ex disse que meu futuro seria de tristeza e solidão e então matou nossos filhos', afirmou em relato tocante.
Delegada que perdeu os dois filhos alerta para violência vicária e culpa imposta às mães
Hoje, aos 43 anos, Amanda Souza trabalha como delegada na Unidade de Recuperação de Dispositivos Móveis (Foto: Arquivo pessoal)

Atenção: esta reportagem contém relatos de violência que podem ser sensíveis para alguns leitores.

A delegada Amanda Souza, da Polícia Civil do Pará, revive diariamente a dor de 10 de julho de 2023. Foi nesse dia que o ex-marido assassinou os dois filhos do casal — Marcelo, de 12 anos, e Letícia, de 9 — antes de tirar a própria vida. O crime ocorreu após o fim de um relacionamento marcado por controle, ciúme excessivo e comportamentos abusivos.

“Ele me mandou uma mensagem dizendo que meu futuro seria de tristeza e solidão. Às 16h, me ligou e disse: ‘Parabéns, você conseguiu o que queria: eu matei os seus dois filhos’”, relembra Amanda.

O caso é classificado como violência vicária, quando o agressor atinge filhos ou pessoas próximas com o objetivo de causar sofrimento extremo à mulher.


Um padrão que se repete

A delegada voltou a reviver o trauma ao acompanhar o caso ocorrido recentemente em Itumbiara (GO), onde um homem matou os dois filhos antes de se suicidar. Para Amanda, há um padrão claro nesse tipo de crime.

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“Eles querem que a mulher sofra em vida. Querem que ela se sinta culpada. Colocam sobre ela a responsabilidade por algo que eles decidiram fazer”, afirma.

Ela destaca que, além da dor irreparável, as vítimas ainda enfrentam julgamentos públicos, especialmente nas redes sociais. No caso de Itumbiara, comentários responsabilizavam a mãe das crianças pelo crime cometido pelo pai.

“Culpar a mãe é uma falta de humanidade. É reflexo de uma sociedade machista que ainda tenta justificar o injustificável”, diz.


Relacionamento abusivo de 20 anos

Natural de Minas Gerais, Amanda conta que viveu um relacionamento abusivo por duas décadas sem perceber plenamente o controle exercido pelo marido.

“Ele fazia o controle parecer cuidado. Era dissimulado”, relata.

Os sinais se intensificaram quando ela se mudou para o Pará para assumir o cargo de delegada. O companheiro passou a exigir ligações de vídeo constantes, questionar contatos e monitorar sua rotina.

Em dezembro de 2022, diante da escalada do comportamento controlador, ela decidiu encerrar o casamento. Meses depois, o ex-marido cometeu o duplo homicídio.


Falta de dados e políticas públicas

No Brasil, ainda não há dados consolidados específicos sobre violência vicária, o que dificulta a formulação de políticas públicas voltadas à prevenção.

Plataformas como o Mapa Nacional da Violência de Gênero passaram recentemente a incluir registros desse tipo de crime envolvendo brasileiras no exterior. Especialistas defendem a ampliação do monitoramento interno para dimensionar o problema no país.

Amanda, que hoje atua na Unidade de Recuperação de Dispositivos Móveis em Belém, pretende aprofundar o estudo sobre o tema em um mestrado.

“Se há padrão, é possível identificar. Se é possível identificar, é possível prevenir”, afirma.


Como sair de um relacionamento abusivo

Ao compartilhar sua história, Amanda busca orientar outras mulheres. Segundo ela, dois pilares são fundamentais para romper o ciclo da violência:

  1. Autoconhecimento e fortalecimento emocional – compreender os sinais de abuso e reconhecer a própria situação.
  2. Independência financeira – criar condições concretas para sair da relação com segurança.

“Muitas sabem que vivem um relacionamento abusivo, mas não conseguem sair por dependência emocional ou financeira. É preciso estratégia e rede de apoio”, alerta.

Mesmo marcada pela tragédia, Amanda afirma que transformou a frase dita pelo ex-marido — “seu futuro será de tristeza e solidão” — em força para seguir.

“Eu não podia permitir que ele determinasse meu destino.”

Ao dar voz à própria dor, ela tenta transformar sofrimento em conscientização — e impedir que outras mulheres enfrentem o mesmo desfecho devastador.

Com informações da BBC News