A proposta de criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim tem gerado apreensão entre moradores e lideranças comunitárias da região do Jacamim, na zona rural de São Luís. A principal preocupação é com a possibilidade de desapropriação de áreas ocupadas há anos por famílias que vivem do plantio, da pesca e de outras atividades de subsistência.
Para quem mora na área, o debate sobre preservação ambiental não pode ignorar a realidade social das comunidades. Muitos dos moradores afirmam não ter qualificação profissional nem alternativas de emprego formal para recomeçar a vida fora do território onde construíram suas histórias. O temor cresce diante da possibilidade de perder propriedades que, segundo eles, estão em fase final de titulação pelo Instituto de Colonização e Terras do Maranhão.
A discussão ganha força com a realização de uma consulta pública marcada para esta sexta-feira (17), às 9h, no IFMA do Monte Castelo. O encontro deve discutir a criação da Resex Tauá-Mirim, proposta que abrange uma área formada por 12 comunidades e atinge diretamente localidades como Jacamim, Embaubal, Amapá, Ilha Pequena e regiões próximas.
O que é a Resex e por que ela preocupa moradores
A Reserva Extrativista é uma unidade de conservação voltada à proteção ambiental e ao uso sustentável dos recursos naturais por populações tradicionais. Nesse modelo, a área passa a ser de domínio público e, quando há terras particulares dentro do perímetro definido, elas podem ser desapropriadas pelo poder público.
É justamente esse ponto que tem alimentado a insegurança entre os moradores do Jacamim. Para a comunidade, o risco de perder a terra representa também a perda do sustento e do patrimônio que seria deixado para filhos e netos.
Comunidade diz que prioridade é sair do isolamento
Presidente da Associação de Moradores Pais e Mães de Jacamim, Temóteo Amorim afirma que a posição da comunidade é contrária à criação da reserva. Segundo ele, quem defende a proposta muitas vezes não vive na região e não enfrenta os problemas cotidianos que marcam a vida local.
De acordo com Temóteo, o Jacamim convive há anos com a falta de serviços básicos, como escola, posto de saúde, saneamento e uma ponte que facilite o deslocamento dos moradores. Hoje, quem precisa sair da comunidade, seja para trabalhar ou buscar atendimento médico, depende de travessia de barco, pagando valores que pesam no orçamento de famílias já vulneráveis.
Na avaliação dele, o debate não deveria estar centrado apenas na preservação do território, mas também em políticas públicas que garantam dignidade a quem vive ali. Para os moradores, desenvolvimento e qualidade de vida não deveriam ser tratados como interesses opostos à proteção ambiental.
Defesa das terras e do direito de permanecer
Outro ponto levantado pela comunidade é o reconhecimento da área como assentamento. Segundo os moradores, as propriedades estão em processo avançado de regularização fundiária, o que reforça a sensação de injustiça diante da possibilidade de desapropriação.
Temóteo diz que muitas famílias lutam há anos para assegurar o direito à terra e enxergam essa conquista como a única herança possível para as próximas gerações. Nesse contexto, a proposta da Resex é vista por parte dos moradores como uma ameaça a esse direito.
Moradores querem infraestrutura e oportunidades
Além da defesa da permanência no território, as lideranças locais cobram um projeto de desenvolvimento para a região. Entre as reivindicações estão obras de infraestrutura, ampliação de serviços públicos e criação de oportunidades de emprego e renda para jovens e adultos.
A comunidade também defende que o poder público e a iniciativa privada possam construir soluções conjuntas para melhorar a vida na área, desde que isso ocorra com responsabilidade ambiental e respeito aos moradores. Entre os desejos manifestados estão a chegada de empreendimentos que gerem trabalho, a construção da ponte prometida há anos e o acesso a uma educação de melhor qualidade.
Para Temóteo, as novas gerações não podem ficar limitadas a poucas possibilidades de sobrevivência. Ele argumenta que filhos e netos dos moradores da região também devem ter o direito de estudar, buscar formação e sonhar com empregos formais, sem que isso signifique abandonar suas origens.
Consulta pública será momento decisivo
Moradores e lideranças do Jacamim confirmaram participação na consulta pública que vai discutir a criação da Resex Tauá-Mirim. A expectativa é de que o posicionamento das famílias que vivem diretamente na área seja levado em consideração pelos órgãos responsáveis.
O presidente da associação afirma que a comunidade pretende se manifestar de forma clara durante o encontro, sem defender interesses externos, mas sim o direito de quem mora no território e conhece de perto suas dificuldades.
O vice-presidente da entidade, Francisco Soares, reforçou o posicionamento contrário à proposta. Segundo ele, o que a comunidade busca é dignidade, acesso a direitos e integração com o restante da cidade, e não mais restrições.
Debate opõe preservação e realidade social
A discussão em torno da Resex Tauá-Mirim revela um embate delicado entre preservação ambiental e direitos sociais. De um lado, há a proposta de proteger ecossistemas importantes da região. De outro, estão famílias que temem ser afastadas de suas terras sem que antes tenham sido resolvidos problemas históricos de abandono e isolamento.
Para os moradores do Jacamim, qualquer decisão sobre o futuro da área precisa considerar não apenas o valor ambiental do território, mas também a vida de quem depende dele todos os dias para sobreviver.






