Mesmo com o fim das ações da campanha Junho Laranja, os dados revelados pelo Hospital da Ilha escancaram uma realidade alarmante no Maranhão: entre maio de 2023 e abril de 2025, 32 mulheres adultas foram vítimas de queimaduras causadas por violência doméstica ou de gênero. Os números, apresentados pela médica Carol Hortegal, diretora da unidade e da Sociedade Brasileira de Queimaduras no estado, expõem o uso crescente do fogo como instrumento de agressão — em muitos casos, associado a tentativas de feminicídio.
O retrato dos atendimentos
| Período analisado | Total de admissões | Mulheres adultas | Vítimas de violência* |
|---|---|---|---|
| Mai/2023 – Abr/2025 | 360 (201 adultos / 159 crianças) | 81 | 32 (39%) |
*Violência inclui tentativa de feminicídio, tentativa de homicídio e autoagressão.
Detalhamento das 32 vítimas adultas de violência
- 14 tentativas de autoextermínio (44%)
- 13 tentativas de feminicídio (41%)
- 5 tentativas de homicídio (15%)
Tipos de queimaduras (adultos)
- Térmica direta: 70 %
- Escaldamento: 15 %
- Elétrica: 10 %
- Química: 5 %
“Marcas no corpo, feridas na alma”
Sob esse lema, a Campanha Junho Laranja 2025 ampliou o foco da prevenção de acidentes para o enfrentamento explícito da violência de gênero. “Não basta tratar a lesão física; é preciso reconhecer a agressão por trás do ferimento”, enfatiza a diretora do Hospital da Ilha e da SBQ/MA, Dra. Carol Hortegal.

Por dentro dos números
- 81 mulheres adultas queimadas em dois anos;
- 50 % vítimas de acidentes domésticos;
- 38 % vítimas de violência;
- 7 % acidentes de trabalho;
- 3 % atrito (possíveis maus-tratos).
Para crianças, o quadro segue outro padrão: escaldamentos respondem por 53 % dos casos, geralmente em cozinhas.
Rede de proteção ainda é frágil
Após a demolição do Centro Cultural de Estreito e outros cortes em serviços sociais, a campanha reforçou a importância de integração entre saúde, segurança pública e assistência social. A UTQ liberou 290 pacientes no período, mas destaca lacunas no acompanhamento psicológico e jurídico após a alta.
“Cada cicatriz conta uma história que precisa ser acolhida com dignidade. Que o Junho Laranja não seja apenas uma data no calendário”, reforça Hortegal.
Próximos passos
- Capacitação permanente de equipes para identificar violência disfarçada de acidente;
- Acordos intersetoriais para agilizar medidas protetivas a vítimas;
- Campanhas contínuas de educação sobre riscos de queimaduras e mecanismos de denúncia.
Como denunciar
- Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher)
- Disque 190 em situações de emergência
- Procure a Delegacia Especial da Mulher ou a UTQ do Hospital da Ilha para encaminhamentos
Esta reportagem consolida dados da SBQ/MA e entrevistas concedidas pela Dra. Carol Hortegal durante a Campanha Junho Laranja 2025.






