O relatório preliminar apresentado pela interventora judicial Susan Lucena sobre a gestão da Federação Maranhense de Futebol (FMF) e do Instituto Maranhense de Futebol (IMF) traz graves indícios de má administração financeira e patrimonial. O documento, que será oficialmente detalhado em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (14), revela movimentações bancárias suspeitas nos dias que antecederam o afastamento da diretoria pela Justiça, além de problemas estruturais e falta de transparência em setores estratégicos da entidade, como o Registro de Atletas.
Saques e transferências antes do afastamento
Segundo o relatório, nos dias que antecederam a decisão judicial do juiz Douglas de Melo Martins — que afastou toda a cúpula da FMF e do IMF no dia 4 de agosto — foram realizadas movimentações expressivas em contas bancárias das duas entidades. Em uma conta da FMF, houve saque de R$ 88 mil, deixando a conta com saldo negativo de R$ 4.165,76. No mesmo período, o IMF realizou dois PIX no valor total de R$ 89,9 mil, também no dia da publicação da decisão.
Essas transações ocorreram em uma agência localizada no bairro do Calhau, em São Luís, e são interpretadas pela equipe de intervenção como um possível indício de tentativa de esvaziamento financeiro antes da destituição da diretoria, que tinha à frente o presidente Antônio Américo Lobato Gonçalves e outros 16 dirigentes.
Falta de controle e acesso ao setor de registro
Outro ponto destacado no relatório é a ausência de acesso ao sistema do Setor de Registro da FMF, responsável por controlar transferências, inscrições e registros de atletas profissionais, amadores e do futebol feminino. O setor, que movimenta grandes volumes de recursos principalmente no início das temporadas, funciona com base em cobranças por serviços prestados a clubes e jogadores, conforme resolução própria da FMF.
Por não possuir credenciais para acessar o sistema, que é vinculado à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a interventora ainda não pôde auditar os dados financeiros e operacionais da área. Um pedido de acesso já foi encaminhado à CBF para possibilitar a análise completa dessas movimentações.
Sedes em estado precário
Além das irregularidades financeiras, o relatório inclui imagens que mostram o estado de abandono da sede da FMF e do IMF, localizadas no andar térreo do Palácio dos Esportes, no Centro de São Luís. As fotos mostram paredes com mofo, infiltrações, fiações expostas, além de má conservação em auditórios e salas de departamentos como Presidência, Competições, CEAF, Financeiro e TJD. O documento aponta negligência com o patrimônio físico das instituições.
Ministério Público denunciou 17 dirigentes
As investigações tiveram origem em uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA), que acusa as entidades de gestão irregular, falta de transparência e possível desvio de finalidade. O processo tramita na Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís e tem valor de causa fixado em R$ 2 milhões.
Segundo o MP, assembleias teriam sido convocadas em janeiro deste ano para votação de contas e alteração do estatuto da FMF sem a disponibilização de documentos essenciais, como balancetes, atas e normas eleitorais. O MP também solicitou o afastamento dos dirigentes e a nomeação de administradores provisórios — medidas já atendidas pela Justiça.
Defesa e reação da antiga diretoria
Em nota oficial, a FMF e o IMF contestaram a divulgação do relatório preliminar pela interventora, alegando que houve quebra de sigilo bancário e parcialidade na condução da intervenção. “A exposição seletiva e parcial de informações protegidas por sigilo bancário afronta a Constituição e os princípios do devido processo legal e da presunção de inocência”, afirmou a defesa.
As entidades afirmam ainda que estão adotando medidas judiciais para contestar a atuação da interventora e assegurar o direito à ampla defesa. A FMF reforçou que sempre colaborou com as autoridades e aguarda notificação oficial para apresentar sua manifestação nos autos do processo.
Próximos passos
O relatório apresentado é preliminar e, segundo Susan Lucena, será ampliado com base em novos documentos, depoimentos e análises técnicas. A expectativa é que, com o acesso ao sistema da CBF e com a continuidade da auditoria, novas informações sobre a movimentação financeira e administrativa da FMF venham à tona nas próximas semanas.






