O Brasil registrou 23.919 casos de desaparecimento de crianças e adolescentes ao longo de 2025, segundo dados repassados pelos estados e pelo Distrito Federal ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). O número representa uma média de 66 desaparecimentos de menores de 18 anos por dia e um aumento de 8% em relação a 2024, quando a média diária era de 60 registros.
De acordo com a Lei nº 13.812/2019, que institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, é considerada desaparecida toda pessoa cujo paradeiro seja desconhecido, independentemente da causa. Do total de registros envolvendo crianças e adolescentes em 2025, cerca de 61% (14.658) são do sexo feminino, enquanto 38% (9.159) são do sexo masculino. Em 102 casos, o sexo não foi informado.
Os números constam no Painel Oficial de Pessoas Desaparecidas e Localizadas, alimentado pelas secretarias estaduais de segurança pública. O levantamento também mostra que, entre os desaparecidos em todas as faixas etárias, o perfil se inverte: 59% dos registros envolvem homens.
Segundo a coordenadora de Políticas sobre Pessoas Desaparecidas, Iara Buono Sennes, a predominância de meninas entre os casos de desaparecimento na infância e adolescência é um dado relevante, mas ainda não permite conclusões definitivas. “Por termos dificuldade na apuração das causas do desaparecimento e na qualificação do fenômeno, ainda não conseguimos inferir motivações e causalidades”, afirmou. Para ela, a política pública na área ainda é recente e exige maior integração com os estados para compreender diferenças regionais e de gênero.
Entre as unidades da federação, as maiores taxas de desaparecimento de crianças e adolescentes por 100 mil habitantes foram registradas em Roraima (40), Rio Grande do Sul (28) e Amapá (24). No Maranhão, foram contabilizados 1.182 casos, o que corresponde a uma taxa de 16,84 desaparecidos por 100 mil habitantes.
Após queda durante a pandemia de Covid-19, os registros de desaparecimento voltaram a subir. Somente em 2025, mais de 84 mil pessoas desapareceram no país, considerando todas as faixas etárias — o maior número desde o início da série histórica, em 2015. A taxa nacional foi de 39 desaparecimentos a cada 100 mil habitantes.
São Paulo concentrou quase um quarto dos registros, com 20.546 casos no período. Em termos proporcionais, Roraima lidera o ranking nacional, com cerca de 78 desaparecimentos por 100 mil habitantes.
Buscas em Bacabal mobilizam força-tarefa
O cenário nacional ganha contornos dramáticos com o desaparecimento dos irmãos Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, no povoado São Sebastião dos Pretos, zona rural de Bacabal (MA). As crianças estão desaparecidas desde o dia 4 de janeiro, e as buscas completam 25 dias nesta quarta-feira (28), sem qualquer vestígio do paradeiro dos irmãos.
A operação mobilizou mais de mil pessoas, entre agentes das forças de segurança estaduais e federais, além de voluntários. Nos primeiros 20 dias, as equipes percorreram mais de 200 quilômetros por terra e por água, incluindo áreas de mata fechada e de difícil acesso. A Marinha realizou varreduras em 19 quilômetros do rio Mearim, com apoio de equipamentos como o side scan sonar, utilizado para mapear áreas submersas.
Mesmo com buscas aéreas, terrestres e subaquáticas, nenhum indício foi encontrado. Diante da ausência de pistas, a força-tarefa foi reduzida e os trabalhos passaram a ser conduzidos de forma mais direcionada, com foco na investigação policial. Segundo o delegado-geral adjunto operacional da Polícia Civil, Ederson Martins, a principal linha de investigação é a de que as crianças tenham se perdido na mata. “Enquanto não houver novos indícios, todas as hipóteses continuam em aberto”, afirmou.
A Polícia Civil de São Paulo também descartou a informação de que os irmãos teriam sido vistos em um hotel na capital paulista. Equipes estiveram no local indicado e constataram que as crianças identificadas não eram Ágatha e Allan.
O protocolo Amber Alert, acionado em situações de risco, também foi utilizado no caso. A ferramenta, implementada pelo Ministério da Justiça em parceria com a Meta desde 2023, permite a divulgação de informações e imagens de crianças desaparecidas em plataformas como Facebook e Instagram, em um raio de até 200 quilômetros do local do desaparecimento.
A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão informou que as equipes permanecem em prontidão para retomar as buscas em pontos específicos caso surjam novos indícios. Um dos primos das crianças, Wanderson Kauã, de 8 anos, que também havia desaparecido, foi localizado com vida no início de janeiro e tem contribuído, dentro do possível, com informações para auxiliar as investigações.
Com informações de Letícia Fiuza e Isadora Sátira, g1 Goiás






