Um BYD Dolphin incendiou no último domingo (19 de outubro) enquanto era carregado em uma rua de Santa Maria (RS). Segundo o Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Sul, o fogo não partiu do conjunto de baterias — que não foi afetado —, mas de uma extensão elétrica improvisada e subdimensionada, usada para ligar o carregador portátil a uma tomada distante.
O que diz a perícia
Em nota, os Bombeiros informaram que a extensão, “provavelmente inadequada”, passava por dentro do veículo e conectava-se ao carregador, posicionado sobre o estofamento do banco. “Devido à sobrecarga elétrica, a extensão derreteu e rompeu exatamente no ponto de junção com o carregador”, concluiu a corporação. As chamas ficaram restritas ao interior da cabine.
Por que isso é perigoso
Para Genaro Mariniello da Silva, professor de engenharia elétrica da FMU, o uso de extensões e tomadas que não suportam a corrente do equipamento cria um cenário típico de risco: “O superaquecimento dos fios pode derreter o isolamento e iniciar um incêndio — pior ainda quando encostado a materiais inflamáveis, como estofamento.” O professor lembra que o mesmo vale para eletrodomésticos de alto consumo (chapinha, secador, aquecedor) ligados fora das especificações.
A BYD ainda não se manifestou sobre o caso.
Como carregar um carro elétrico em casa com segurança
A recarga em tomada doméstica é segura quando segue o manual do fabricante e as normas técnicas. No BYD Dolphin, o manual recomenda:
- Tensão: 220 V
- Corrente: 10 A
- Aterramento: obrigatório
Com essas especificações, a potência é de 2.200 W — menor que a de um chuveiro elétrico. Dados da Cemig indicam que um chuveiro a 220 V consome em média 6.000 W (cerca de +172% em relação ao carregador portátil do Dolphin).
Boas práticas do manual do Dolphin:
- Não usar adaptadores, benjamins ou extensões adicionais.
- Desenrolar o cabo durante o uso (evita acúmulo de calor).
- Temperatura ambiente até 50 °C.
- Não colocar o carregador no porta-malas, sob o carro ou próximo ao pneu.
- Não usar o equipamento se a tomada estiver frouxa ou com mau contato.
- Evitar choques mecânicos (derrubar/pisar), que prejudicam a dissipação de calor.
Passos ideais, segundo Silva (FMU):
- Ponto exclusivo de recarga, dedicado e identificado.
- Instalação por profissional qualificado, com disjuntor e DR conforme norma.
- Carregador portátil com proteções integradas (sobrecorrente, sobretemperatura, fuga à terra).
O que deu errado em Santa Maria
De acordo com Clemente Gauer, diretor de segurança da ABVE, a extensão foi ligada a uma tomada na janela do prédio e o veículo ficou fechado para evitar furto do adaptador, aumentando a temperatura interna: mesmo com clima moderado (25–30 °C), o efeito estufa no interior pode chegar a 50 °C, ampliando o risco de combustão quando há superaquecimento do conjunto extensão + carregador.
Infraestrutura de recarga no Brasil
O debate sobre a adaptação da rede cresce com o avanço dos elétricos. Segundo a ABVE (ago/2025):
- 16.880 pontos públicos de recarga no país;
- 318.585 veículos 100% elétricos + híbridos plug-in (média de ~19 veículos por ponto);
- SP concentra 28,3% dos eletropostos (4.777);
- RS tem 1.455 pontos; Porto Alegre lidera no estado (288), e Santa Maria possui 42.
Para Gauer, o caso reforça a segurança dos VEs quando se respeitam as normas: “Veículos 100% elétricos são seguros; o problema está na recarga fora das especificações.”
Serviço ao leitor — checklist rápido
- ( ) Nunca usar extensão/adaptador: instale ponto dedicado.
- ( ) Confirme: 220 V, 10 A e aterramento.
- ( ) Cabo esticado e ambiente ventilado.
- ( ) Nada de carregar com o carro fechado sob sol.
- ( ) Inspeção periódica de tomada, plugues e disjuntor/DR.
Conclusão: o incêndio em Santa Maria decorreu de falha externa de recarga — não de bateria. Com instalação correta e uso conforme manual, a recarga doméstica do Dolphin (e de outros VEs) é segura.






