Há mais de dois meses, o distrito de Uiraponga (Morada Nova, interior do Ceará) vive um êxodo forçado após a escalada da violência entre facções. Casas foram abandonadas, comércios fecharam e as ruas ficaram quase vazias. Relatos de moradores e documentos policiais apontam ameaças diretas à população, com expulsões em massa e trocas de tiros que consolidaram o clima de pânico.
O que aconteceu
- Ruptura e guerra por território. A crise se intensificou quando José Witals da Silva Nazário (“Playboy”) rompeu com a GDE, aliou-se ao TCP e passou a disputar com Gilberto de Oliveira Cazuza (“Mingau”) o controle de Uiraponga. Márcio Jailton da Silva (“Piolho”) é citado como comparsa de Witals.
- Ameaças à população. Segundo inquérito, o grupo de Witals não mirou apenas rivais: mensagens e recados pressionaram famílias a sair “para evitar coisa pior”. Após um tiroteio na madrugada de 3 de julho, quem ainda resistia abandonou o distrito.
Quem são os alvos principais
- “Playboy” (TCP): apontado como liderança que ordenou expulsões; foi preso em 28 de julho, em São Paulo.
- “Piolho”: preso um dia depois, em Morada Nova; investigado por homicídios e com arma apreendida.
- “Mingau”: histórico domínio em Uiraponga; está foragido, com seis mandados e recompensa de R$ 7 mil por informações.
Retrato do abandono
- Serviços afetados. A escola do distrito foi transferida para outro endereço; o posto de saúde deixou de operar diariamente. Moradores descrevem idosos e poucas famílias sem condições de sair, agora sem comércio e com acesso precário a serviços.
- Decreto municipal. A prefeitura reconheceu “situação anormal e emergencial”, autorizando medidas para manter serviços essenciais e realocar alunos e atendimentos de saúde.
“Era uma comunidade ativa, com quadrilha junina, teatro e festas. Em menos de 15 dias ficou praticamente vazia”, relata um morador.
O que dizem as autoridades e o que falta
- Polícia. A Secretaria da Segurança informa operações contínuas na região (ocupação policial, saturação, prisões e buscas). Uma ofensiva recente cumpriu 11 mandados de prisão e 22 de busca em cidades do Vale do Jaguaribe; celulares foram apreendidos.
- Ministério Público e órgãos locais. Órgãos de justiça afirmam acompanhar o caso e apoiar medidas para retomada dos serviços e retorno seguro das famílias.
Ponto crítico: apesar de prisões, o medo persiste e o distrito segue rarefeito. “Mingau” continua foragido, e moradores cobram plano de retorno com garantia real de segurança.
Análise
Especialistas veem o caso como síntese do avanço territorial de facções no Ceará: quando a disputa deixa de ser “entre criminosos” e passa a regular a vida cotidiana, o Estado perde capilaridade. Sem inteligência policial estruturante, ações sociais contínuas e reconstrução da confiança, prisões pontuais não bastam para reverter o esvaziamento.
Situação atual (resumo)
- Distrito esvaziado: maioria das 300 famílias saiu; restam idosos e poucos núcleos.
- Serviços: escola remanejada; posto de saúde sem rotina diária.
- Segurança: operações seguem; dois alvos presos; principal rival foragido.
- Próximos passos: capturar remanescentes, retomar serviços com proteção e apresentar plano de retorno que combine policiamento, políticas sociais e presença do poder público.
Denúncias e informações sobre foragidos podem ser feitas de forma anônima pelos canais oficiais da polícia.
Com informações do G1 CE






