O governo brasileiro avalia um novo avanço na política nacional de biocombustíveis: elevar para até 35% a mistura de etanol anidro na gasolina, proposta conhecida como E35. O tema ganhou destaque recentemente durante um evento da consultoria Datagro, que reuniu representantes do governo, indústria automotiva e especialistas para discutir os possíveis impactos técnicos e econômicos da mudança.
Atualmente, a gasolina vendida no país contém 30% de etanol (E30). A proposta de ampliação integra as diretrizes da Lei do Combustível do Futuro, marco regulatório que busca ampliar o uso de energias renováveis e reduzir as emissões de carbono no setor de transportes.
Segundo Marlon Arraes, diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, qualquer alteração no percentual de mistura depende de uma série de análises técnicas e da aprovação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
“A mudança exige comprovação de viabilidade técnica. Por isso estamos estruturando um plano de testes com participação da indústria, especialistas e órgãos do governo”, explicou.
Testes técnicos e ensaios de campo
O plano de trabalho prevê ensaios laboratoriais e testes em veículos e motocicletas para avaliar os impactos da nova composição do combustível. Parte dos estudos deverá contar com financiamento de programas de pesquisa e parcerias com o setor automotivo.
Experiências semelhantes já ocorreram em mudanças anteriores na composição da gasolina brasileira, como na adoção da mistura E27. Agora, os testes deverão avaliar percentuais superiores a 30%.
De acordo com Renato Romil, gerente da divisão de motores e veículos do Instituto Mauá de Tecnologia, os estudos devem seguir metodologia semelhante à aplicada em testes anteriores.
“No E30 analisamos veículos de diferentes tecnologias, desde modelos mais antigos até os mais modernos, incluindo carros com injeção direta e motocicletas. A ideia agora é repetir esse processo para o E35 e ampliar os testes de durabilidade”, afirmou.
As análises devem medir possíveis impactos em desempenho, consumo de combustível, emissões e funcionamento dos motores.
Frota flex favorece a mudança
Um dos fatores que favorecem o debate é o perfil da frota brasileira. Atualmente, mais de 80% dos veículos leves vendidos no país são flex, capazes de utilizar tanto gasolina quanto etanol.
Apesar dessa característica, o consumo do etanol hidratado ainda está abaixo do potencial. Muitos motoristas optam pela gasolina quando o preço do etanol ultrapassa cerca de 70% do valor da gasolina, referência utilizada para compensar a diferença energética entre os combustíveis.
Com o aumento da mistura obrigatória na gasolina, o etanol passaria a ter maior participação no consumo total, independentemente da escolha do motorista na bomba.
Segundo especialistas, o aumento do teor também pode trazer benefícios técnicos.
“Quando elevamos a presença de etanol na gasolina, melhoramos a qualidade do combustível, além de favorecer o desempenho dos motores e gerar ganhos ambientais”, destacou Romil.
Estratégia para reduzir emissões
Para a indústria automotiva, o avanço no uso de biocombustíveis é visto como uma estratégia relevante para reduzir emissões de carbono sem aumentar significativamente o custo dos veículos.
Representantes do setor defendem que a descarbonização do transporte deve considerar não apenas as emissões do escapamento, mas todo o ciclo de vida do combustível.
Nesse cenário, os biocombustíveis ganham destaque, especialmente em países com forte produção agrícola, como o Brasil.
Vantagem competitiva do Brasil
Especialistas apontam que o país possui vantagem estratégica na produção de etanol, especialmente a partir da cana-de-açúcar. O Brasil acumula mais de quatro décadas de experiência no uso de misturas elevadas do biocombustível desde a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), na década de 1970.
Para o governo, ampliar a mistura de etanol pode fortalecer a segurança energética, reduzir emissões e ampliar o mercado da cadeia sucroenergética.
A decisão final sobre o novo percentual dependerá dos resultados técnicos dos testes e da análise regulatória. Caso seja aprovada, a medida poderá representar um dos maiores avanços recentes na política brasileira de biocombustíveis.
Com informações da CNN Money






