ICMBio avalia limite diário de visitas nos Lençóis Maranhenses após salto histórico no turismo

Com crescimento de 191% desde 2019, parque estuda capacidade de carga para preservar lagoas e lençol freático.
ICMBio avalia limite diário de visitas nos Lençóis Maranhenses após salto histórico no turismo
Registro do acesso à Lagoa Bonita, nos Lençóis Maranhenses (Foto: Reprodução)

O avanço recorde do turismo nos parques nacionais brasileiros colocou os Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses no centro do debate sobre preservação ambiental e gestão de visitantes. Após registrar um crescimento de 191% na visitação entre 2019 e 2024, o destino (recentemente reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco) passou a discutir a possibilidade de estabelecer um limite diário de entradas.

A medida ainda não está definida. Estudos técnicos estão em andamento para identificar qual é a capacidade de fluxo ideal do parque antes de qualquer decisão sobre restrição de visitas. A análise envolve o ICMBio, responsável pela gestão do parque, as prefeituras dos municípios que integram a região e representantes das comunidades locais.

Crescimento acelerado e riscos ambientais

Os Lençóis Maranhenses acompanham a tendência nacional de aumento do turismo em áreas protegidas. Em 2024, os parques nacionais do Brasil receberam 12,4 milhões de visitantes, o maior número da história. Dentro desse cenário, os Lençóis se tornaram um dos destinos mais procurados do país, impulsionados pela visibilidade internacional e pelas redes sociais.

De acordo com dados oficiais, o parque passou de 141 mil visitantes em 2019 para 440 mil em 2024. Somente entre janeiro e julho de 2025, foram 381.131 visitantes, frente a 277.091 no mesmo período de 2024 — um crescimento de 37,55%.

O aumento expressivo acendeu um alerta entre gestores e empreendedores locais. Um dos principais temores é o risco de contaminação do lençol freático, especialmente nas áreas de maior circulação turística, como o circuito da Lagoa Bonita, frequentemente apontado como um dos pontos mais disputados e já impactados pela superlotação.

Impacto direto nas cidades da região

O crescimento do parque se reflete diretamente nos municípios do entorno. Santo Amaro, segunda maior cidade dos Lençóis, ilustra bem esse cenário. Com cerca de 20 mil moradores, o município chega a receber três vezes mais visitantes durante a alta temporada, entre junho e agosto.

Os números mostram a velocidade da transformação:

  • 2021: 61.055 visitantes
  • 2022: 125.111
  • 2023: 152.720
  • 2024: 217.926
  • 2025: 297.176

Para especialistas e empresários locais, o crescimento traz oportunidades, mas também desafios. A comparação com Barreirinhas, maior cidade da região, serve como alerta. Barreirinhas é frequentemente citada como exemplo de como a falta de planejamento pode resultar em crescimento desordenado, especulação imobiliária e problemas com resíduos sólidos — situações que começam a surgir em outros municípios.

Controle de acesso em debate

A possibilidade de limitar o número de visitantes aparece, inclusive, em editais recentes que tratam do credenciamento de operadores turísticos para atuar no parque. A ideia não é frear o turismo, mas ordenar o crescimento para garantir sustentabilidade ambiental e qualidade da experiência para o visitante.

Atualmente, Santo Amaro já adota algumas medidas de controle, como a cobrança de uma taxa de R$ 10 por até três dias de estadia, além de impostos sobre passeios turísticos. Segundo representantes do setor, a população local demonstra consciência sobre a importância da preservação ambiental, reconhecendo o parque como principal ativo econômico da região.

Turismo em alta, preservação em foco

Apesar da pressão sobre a infraestrutura, a avaliação geral é de que a qualidade urbana nos Lençóis Maranhenses ainda é superior à média do Maranhão. No entanto, o consenso entre gestores e moradores é que o planejamento precisa acompanhar o ritmo do crescimento.

O estudo de capacidade de carga deve servir como base para decisões futuras, equilibrando desenvolvimento econômico, preservação ambiental e bem-estar das comunidades locais. Até lá, os Lençóis Maranhenses seguem como símbolo de um desafio cada vez mais comum no turismo brasileiro: como crescer sem comprometer aquilo que torna o destino único.

Com informações de Lucas Altino – O Globo