Mais de sete meses após a queda da ponte Juscelino Kubitschek, que ligava Estreito (MA) a Aguiarnópolis (TO), a Polícia Federal concluiu a perícia técnica que revela as causas do colapso que matou 14 pessoas e deixou três desaparecidas. O laudo foi exibido neste domingo (28) pelo Fantástico, da TV Globo, e aponta que o desabamento foi provocado por deformações estruturais no vão central da ponte, sobrecarregado por excesso de peso, agravado por décadas de desgaste e intervenções mal executadas.
A tragédia ocorreu em 22 de dezembro de 2024, véspera de Natal. Dezoito pessoas caíram no rio Tocantins. Apenas uma sobreviveu. A investigação da PF utilizou drones, scanners a laser e modelagem 3D para reconstruir o cenário do acidente. O colapso se deu em cerca de 15 segundos — o vão central ruiu em menos de um.
Estrutura obsoleta, intervenções precárias
A ponte foi construída na década de 1960, com um vão livre de 140 metros, utilizando concreto protendido — técnica então inovadora no Brasil. Apesar de ser um marco da engenharia, a estrutura não acompanhou a evolução da frota e da carga transportada nas últimas décadas.
O último reforço substancial foi feito entre 1998 e 2000. Segundo os peritos, uma camada original de concreto foi substituída por asfalto e um reforço lateral foi adicionado, mas mal fixado. No momento do colapso, esse reforço se desprendeu “como uma fita crepe”, afirmou o perito Laércio de Oliveira Silva Filho.
Em 2019, um relatório técnico encomendado pelo DNIT apontou “vibrações excessivas” e “rebaixamento de 70 cm” no vão central. O documento classificava o estado da ponte como “sofrível e precário”. Apesar disso, as recomendações para reformas estruturais não foram efetivadas. Uma licitação aberta em 2024 fracassou, e a ponte cedeu antes que qualquer intervenção fosse realizada.
Investigação aponta omissão e possível crime
Com o laudo final em mãos, a Polícia Federal quer entender por que medidas preventivas não foram adotadas, mesmo diante dos alertas. O delegado Allan Reis de Almeida, responsável pelo caso, afirmou que “houve omissão de agentes públicos quanto à manutenção da ponte”, descartando que se tratasse de um acidente imprevisível. “Era plausível e anunciado”, declarou.
O DNIT informou que a comissão técnica que apura o caso finalizou seus trabalhos e os documentos estão na corregedoria. O então superintendente regional do órgão no Tocantins, Renan Bezerra de Melo Pereira, foi exonerado em abril. Ele afirma, em nota, que exerceu o cargo por apenas um ano e cinco meses e que aguarda os resultados das perícias.
Famílias em luto e reconstrução em andamento
Entre os mortos estão Salmon, Alessandra e o pequeno Felipe, de 10 anos, moradores de Palmas que seguiam para o Maranhão. Apenas o corpo de Alessandra foi encontrado. “É muito sofrimento para a nossa família”, disse Maristelia Alves, parente das vítimas.
A ponte antiga foi implodida em fevereiro. No mesmo local, está em construção uma nova travessia, orçada em R$ 171 milhões. A obra terá 630 metros — 100 a mais que a anterior — e um vão central de 154 metros, sustentado por pilares de 20 metros de altura. A previsão de entrega é dezembro deste ano.
Enquanto isso, a travessia entre os estados depende de balsas. Motoristas enfrentam longas esperas, que podem durar até 10 horas, como relataram caminhoneiros e trabalhadores locais.
Para o diretor técnico-científico da PF, Roberto Reis Monteiro Neto, o caso serve como alerta nacional. “Com manutenção adequada, reavaliações periódicas de carga e atenção preventiva, tragédias como essa podem ser evitadas.”
Com informações do Fantástico






