Luis Fernando Verissimo e a arte de transformar o cotidiano em literatura

Autor de personagens icônicos, como Ed Mort e o Analista de Bagé, Verissimo marcou gerações com sua escrita afiada e bem-humorada.
Luis Fernando Verissimo e a arte de transformar o cotidiano em literatura
Luis Fernando Verissimo, um dos maiores cronistas do Brasil, deixou um legado de mais de 70 livros (Foto: Divulgação)

O Brasil se despede de um dos maiores cronistas de sua história literária: Luis Fernando Verissimo, que partiu aos 88 anos em Porto Alegre. Filho de Erico Verissimo, cresceu cercado por livros e pela atmosfera da escrita, mas construiu um caminho próprio, que combinava humor, ironia e observações sobre a vida cotidiana em crônicas, contos e romances. Sua trajetória é marcada por mais de 70 livros publicados, com 5,6 milhões de exemplares vendidos, e pela criação de personagens que se tornaram parte do imaginário popular.

Uma obra que virou referência

A carreira de Verissimo começou no jornal Zero Hora, em 1966, como revisor, antes de assumir colunas que mais tarde seriam lidas em jornais como O Estado de S. Paulo, O Globo e Zero Hora. Desde o primeiro livro, O Popular (1973), o escritor transitou com naturalidade entre crônicas, romances, quadrinhos e roteiros de televisão. Obras como O Analista de Bagé (1981), Ed Mort (1979), A Velhinha de Taubaté (1983) e As Cobras marcaram sua produção criativa, sempre equilibrando crítica social e humor. Parte desse universo também ganhou as telas com Comédias da Vida Privada (1994), série da Rede Globo inspirada em seus textos.

Além da literatura, Verissimo deixou sua marca no jornalismo e na televisão, sendo roteirista de programas como TV Pirata. Suas obras mais voltadas ao público escolar, como Comédias para se ler na escola, e best-sellers como As mentiras que os homens contam ampliaram ainda mais o alcance de sua escrita, fazendo dele um dos autores mais lidos e respeitados do país.

Entre jazz, timidez e futebol

Apesar do sucesso literário, Verissimo cultivava hábitos discretos. Apaixonado por jazz, mantinha o saxofone como companheiro inseparável. Em entrevistas, reconhecia sua timidez, mas dizia que a crônica lhe dava a liberdade de “ser o que quisesse”. Torcedor fervoroso do Internacional, escreveu o livro Internacional, Autobiografia de uma Paixão e cobriu Copas do Mundo desde 1986. Em suas crônicas esportivas, mesclava emoção e lirismo, como no texto Não me acordem, sobre o título mundial do Inter em 2006.

O escritor construiu, ao longo de décadas, uma obra que soube unir humor, crítica e ternura. Deixou para a literatura brasileira o legado de um olhar agudo e sensível sobre as pequenas e grandes contradições da vida.