MPMA pede devolução de R$ 341 mil por obra irregular em Buriticupu

Ação Civil Pública aponta pagamento por serviços não executados e inclui prefeito e, servidores municipais entre os acionados.
MPMA pede devolução de R$ 341 mil por obra irregular em Buriticupu
Prefeito João Carlos Teixeira da Silva foi citado na Ação Civl Pública (Foto: Reprodução)

O Ministério Público do Maranhão (MPMA) ingressou com uma Ação Civil Pública pedindo o ressarcimento de R$ 341.586,10 aos cofres públicos devido a supostas irregularidades na execução de obras de uma quadra poliesportiva na Unidade Integrada João Lisboa, localizada no povoado Terceira Vicinal, no município de Buriticupu.

A ação foi ajuizada na segunda-feira (9) pela 1ª Promotoria de Justiça de Buriticupu e é assinada pelo promotor de justiça Felipe Augusto Rotondo.

Entre os citados na ação estão o prefeito João Carlos Teixeira da Silva, o chefe de gabinete Afonso Batista, a ex-secretária municipal de Educação Salma Torres, além de servidores municipais, engenheiros responsáveis pela fiscalização da obra e a empresa JKF Construções e Serviços Ltda, contratada para executar os serviços.

Também são mencionados na ação os engenheiros civis Ruan Alves e Josias Costa Filho, que atuaram como fiscais do contrato, o controlador-geral do município Paulo Ricardo Paiva e o técnico em edificações Johnatas Faustino, representante legal da construtora.

Contratos e inconsistências

De acordo com o Ministério Público, entre 2020 e 2024 a empresa JKF Construções firmou diversos contratos com o município de Buriticupu que, somados, chegaram a R$ 14.052.676,06, incluindo aditivos contratuais e apontamentos de inconsistências em processos administrativos.

No caso específico da quadra poliesportiva, o MPMA afirma que houve pagamento por serviços que não chegaram a ser executados, situação que teria sido viabilizada por uma sequência de atos administrativos considerados irregulares.

Pagamento sem execução da obra

Segundo a investigação, em 31 de dezembro de 2024, a Prefeitura de Buriticupu realizou o pagamento referente a serviços previstos no contrato da obra.

No entanto, conforme o Ministério Público, até o final de maio de 2025 a obra sequer havia sido iniciada.

Em junho de 2025, após inspeção no local, o MPMA constatou que não havia qualquer execução da obra prevista, sendo encontrada apenas uma quadra já existente há mais de dez anos, onde parte de uma estrutura metálica destinada à nova cobertura havia sido abandonada pela empresa.

Apesar disso, naquele mesmo período, a administração municipal enviou ofício ao Ministério Público informando que 31% da obra já estaria concluída, incluindo serviços preliminares, terraplanagem e estrutura de cobertura.

Também foram encaminhados relatórios assinados pelo fiscal Ruan Alves, além de documento acompanhado de uma fotografia do prefeito no local da obra.

Segundo o promotor Felipe Rotondo, a presença do gestor municipal reforçaria o conhecimento direto da situação.

“Ele acompanhou presencialmente a fiscalização, o que reforça a ciência direta dele sobre a situação das obras”, destacou o promotor.

Documentos considerados falsos

Em agosto de 2025, o município apresentou ao MPMA cópia do processo administrativo que autorizou o pagamento da obra.

De acordo com o Ministério Público, o procedimento incluía diversos documentos ideologicamente falsos, entre eles:

  • nota de empenho da despesa;
  • boletim de medição indicando conclusão de 100% dos serviços preliminares e fundações;
  • nota fiscal emitida pela empresa JKF Construções;
  • nota de liquidação assinada pela então secretária de Educação;
  • parecer do controlador-geral do município declarando o processo “apto para pronto pagamento”;
  • ordem de pagamento e transferência bancária realizada na véspera de Ano Novo.

Laudo técnico confirma ausência da obra

Em março de 2026, a Coordenadoria de Obras e Engenharia do MPMA (COEA) elaborou parecer técnico que reforçou as suspeitas levantadas na investigação.

O relatório apontou que não houve execução de serviços de fundação, terraplanagem ou demais etapas previstas no contrato.

Segundo o documento, a única intervenção identificada no local foi a instalação de uma estrutura metálica sobre uma quadra já existente, sem qualquer obra compatível com os serviços pagos.

O laudo também identificou superfaturamento no valor total de R$ 341.586,10, quantia que o Ministério Público pede que seja devolvida aos cofres públicos.

De acordo com o promotor Felipe Rotondo, as provas indicam uma sequência de atos administrativos que permitiram a liberação do pagamento sem a correspondente execução da obra.

“Os elementos colhidos não apontam para mero erro material ou imperícia, mas para uma cadeia sucessiva de validações documentais incompatíveis com a obra, suficiente para permitir a saída de verba pública sem a correspondente contraprestação”, afirmou.

Condutas apontadas na ação

Na Ação Civil Pública, o MPMA detalha a participação de cada um dos envolvidos.

Segundo a promotoria:

  • o prefeito João Carlos Teixeira da Silva teria acompanhado a situação da obra e participado de comunicações aos órgãos de controle;
  • o chefe de gabinete Afonso Batista assinou autorizações relacionadas ao empenho e ao pagamento;
  • a ex-secretária Salma Torres assinou a liquidação da despesa;
  • os fiscais do contrato atestaram a execução de serviços;
  • o controlador-geral do município emitiu parecer aprovando o pagamento sem ressalvas;
  • a empresa JKF Construções e seu representante legal solicitaram o recebimento com base em medições sem comprovação.

Pedidos do Ministério Público

Na ação judicial, o MPMA pede que os envolvidos sejam condenados ao ressarcimento integral do valor de R$ 341.586,10, acrescido de correção monetária e juros.

Também foram solicitadas outras penalidades, como:

  • perda da função pública, quando aplicável;
  • suspensão dos direitos políticos;
  • pagamento de multa civil, a ser definida pela Justiça;
  • proibição de contratar com o poder público ou receber incentivos fiscais ou creditícios.

O processo seguirá agora para análise do Poder Judiciário, que deverá avaliar as responsabilidades e os pedidos apresentados pelo Ministério Público.

As defesas dos citados não foram encontradas para comentar sobre o caso, mas o espaço segue aberto para eventuais manifestações.

Com informações do MPMA