Uma operação conjunta realizada nesta quinta-feira (7) resgatou mais de 40 pessoas em situação análoga à escravidão na sede da Shekinah House Church, localizada em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís. A ação reuniu equipes do Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho do Maranhão e Polícia Federal.
Segundo o MPT-MA, os trabalhadores foram encontrados em condições degradantes dentro da propriedade, que funcionava como sede da igreja liderada pelo pastor David Gonçalves Silva, preso desde abril sob suspeita de abusos sexuais, violência psicológica e punições físicas contra fiéis.
A Vigilância Sanitária interditou o local após a fiscalização. Os resgatados serão encaminhados para acolhimento por meio da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos. Parte das pessoas deverá permanecer temporariamente na propriedade para cuidar dos animais do haras existente na área.
A operação mobilizou ainda a Polícia Militar do Maranhão, Ministério Público Estadual, Defensoria Pública, equipes do Samu, assistentes sociais e outros órgãos de apoio devido à complexidade da ação.
Leia também
Esta não foi a primeira intervenção das autoridades na sede da igreja. Em 27 de abril, o imóvel já havia sido alvo de uma operação conjunta do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal após denúncias semelhantes. Na ocasião, porém, segundo os investigadores, não foram encontrados elementos suficientes para configurar trabalho análogo à escravidão.
Nos últimos dias, mais de dez pessoas procuraram a polícia para denunciar o pastor David Gonçalves Silva. Natural do Ceará, ele é investigado por crimes como estupro de vulnerável, estelionato, associação criminosa e posse sexual mediante fraude.
As investigações apontam que a igreja também operava como espaço de supostos serviços terapêuticos sem regularização legal, licenciamento ou comprovação técnica dos responsáveis.
Castigos físicos, privação de comida e controle psicológico
Um dos vídeos anexados ao inquérito mostra um adolescente em estado de exaustão após sofrer punições impostas pelo grupo. Segundo a investigação, ele foi obrigado a passar horas em pé, sem dormir, enquanto escrevia repetidamente a frase: “Eu preciso aprender a respeitar meu líder”.
A polícia afirma que o pastor utilizava castigos físicos e psicológicos para manter controle sobre cerca de 100 a 150 fiéis ao longo dos anos.
Entre os métodos identificados estão chicotadas conhecidas internamente como “readas”, aplicadas com um reio, instrumento utilizado em cavalos. Em um dos episódios investigados, vítimas relataram ter recebido entre 15 e 25 golpes.
Áudios atribuídos ao pastor também revelariam a privação de alimentação como forma de punição. Em uma das gravações analisadas pelos investigadores, ele afirma: “Até resolver a situação da bomba, estão sem comer”.
Segundo a polícia, os integrantes da comunidade eram chamados de “piões”, enquanto os dormitórios eram conhecidos como “baia”. O ambiente funcionava sob rígido controle, com monitoramento por câmeras inclusive durante banhos e separação entre homens e mulheres.
Relatos apontam que as agressões também eram utilizadas para coagir vítimas sexualmente.
Homens eram principais alvos de abusos, diz polícia
De acordo com a Polícia Civil, embora a comunidade fosse formada por homens e mulheres, os homens eram os principais alvos dos abusos sexuais investigados.
Uma das vítimas relatou aos investigadores que o pastor manipulava psicologicamente os integrantes da igreja para submetê-los aos abusos.
“Ele dizia que, por fora, podia ser homem, mas que, em quatro paredes, tinha que ser mulher para poder nos ludibriar”, afirmou um dos denunciantes.
Durante as buscas, os policiais apreenderam folhas contendo mais de 100 vezes a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder”, apontada como uma das punições impostas aos fiéis.
Outra vítima relatou ter sofrido agressões físicas, isolamento e humilhações constantes dentro da comunidade religiosa.
“Já apanhei, já fiquei sem refeição, já fiquei trancada no quarto sem poder falar com ninguém. Ele também pedia para as pessoas lá do local me tratarem como louca”, declarou.
O Ministério Público informou que depoimentos, documentos e materiais apreendidos serão anexados ao processo para aprofundar as investigações e responsabilizar os envolvidos.






