Palavras em espera: quando o vocabulário oficial precisa alcançar a língua viva

'Terrir', 'disania' e ‘pejotização’ são palavras que podem, em breve, entrar para o vocabulário oficial da língua portuguesa.
Palavras em espera: quando o vocabulário oficial precisa alcançar a língua viva
Linguistas explicam quais são os critérios da Academia Brasileira de Letras (ABL) para incorporar novos termos (Foto: Reprodução)

Você já acordou sentindo uma preguiça incontrolável, quase crônica, de sair da cama? Talvez esteja enfrentando um caso de “disania”. Na noite anterior, quem sabe tenha assistido a um bom “terrir” — aquele tipo de filme que mistura sustos com risadas — e agora, mesmo sem férias à vista, sente falta do tempo em que era CLT, antes da inevitável “pejotização” do mercado. Se essas palavras soam familiares, mas não aparecem no dicionário, a explicação é simples: elas ainda não foram oficialmente incorporadas ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), o registro que determina como se escreve — e como se classifica — cada termo aceito pela norma culta brasileira.

Embora “disania”, “terrir” e “pejotização” estejam em ampla circulação, elas fazem parte de uma “sala de espera” administrada pelo Observatório Lexical da Academia Brasileira de Letras. Para ingressar no Volp, um termo precisa muito mais do que popularidade passageira. Segundo especialistas, como os linguistas Ricardo Cavalieri (ABL), Cassiano Quilici (PUC) e Marcelo Módolo (USP), o vocábulo deve ter uso estável e homogêneo, aparecer em ao menos três tipos diferentes de textos escritos e estar presente em fontes como livros, artigos científicos e reportagens. O caminho é exigente, mas fundamental para distinguir modismos de verdadeiras inovações linguísticas.

O que é, afinal, o Volp?

É o documento oficial, com força de lei, que registra a grafia correta de cada palavra conforme a norma-padrão. Diferente de dicionários como Houaiss ou Aurélio — que incluem gírias e expressões coloquiais — o Volp não traz significados, apenas formas ortográficas, flexões e classificação gramatical. “O Volp não cria nem proíbe palavras. Ele registra aquilo que já é amplamente aceito e consolidado pelo uso”, explica Cavalieri.

A evolução da língua é constante. Termos como “covid-19”, “sororidade”, “telemedicina” e “home office” foram rapidamente aceitos, impulsionados por necessidade social e ampla repercussão. Já outros, como o emblemático “inshalá” de O Clone (2002), acabaram desaparecendo com o tempo, sem nunca ganhar entrada oficial no vocabulário. O critério principal, portanto, é a permanência — só entra quem veio para ficar.

Palavras em análise: a nova cara do português

Além de disania, terrir e pejotização, outras palavras em análise incluem:

  • cordonel – lona têxtil para conserto de pneus;
  • microssono – cochilo involuntário de poucos segundos;
  • reclínio – ato de se inclinar ou deitar-se;
  • retrofitagem – modernização de prédios antigos sem alterar sua estrutura;
  • tokenização – substituição de dados sensíveis por códigos (tokens).

Algumas dessas vêm de áreas técnicas, como arquitetura e segurança da informação. Outras, do vocabulário informal e da vivência cotidiana. Em ambos os casos, a regra é a mesma: só ganham espaço oficial aquelas que se mostram úteis, recorrentes e coerentes em diferentes contextos.

O poder do uso e os caminhos da língua viva

O processo de ampliação do vocabulário é alimentado por fenômenos como empréstimos linguísticos (ex: bullying, live-action, dogão), adaptação fonética (futebol, sutiã) e mudanças semânticas. Termos como deletar passaram a significar não só apagar arquivos, mas também cortar relações. O “point” virou lugar badalado — mesmo que em inglês essa conotação nem exista. É o “Brazilian English”, como brincam os linguistas.

Setores especializados, como a medicina, também puxam essa inovação: biopsiar, teleinterconsulta, ciberataque, entre muitos outros, foram incorporados por sua relevância prática. A lista recente do Volp inclui ainda termos sociais como homoparental, sudestino, antirracista e empoderamento, refletindo as mudanças culturais que moldam o vocabulário.

No fim das contas, quem manda é o povo

A língua portuguesa, como todas as línguas vivas, se move com os falantes. “A força linguística é muito maior do que qualquer decreto”, afirma Módolo. Isso significa que o futuro da nossa fala não está apenas nas mãos dos dicionários, mas nas nossas. Cada vez que usamos — e repetimos — um novo termo, estamos contribuindo para sua consolidação. E quem sabe, um dia, ele sairá da “sala de espera” para o vocabulário oficial.


Se você está lendo esse texto depois de um microssono ou enquanto tenta escapar da pejotização, saiba: suas palavras já fazem parte da revolução linguística em curso. É só uma questão de tempo até o Volp alcançar você.

Redação / Luiza Tenente, g1