PF investiga uso de login de servidora do MPF no Maranhão em acessos sigilosos

Credenciais funcionais teriam sido usadas pelo grupo ligado a Daniel Vorcaro para obter dados de processos
PF investiga uso de login de servidora do MPF no Maranhão em acessos sigilosos
PF investiga uso de login de servidora do MPF no Maranhão para acessar processos sigilosos relacionados a Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação)

A Polícia Federal investiga o uso recorrente das credenciais de uma servidora do Ministério Público Federal (MPF) lotada no Maranhão para consultar processos e investigações protegidos por sigilo.

Segundo relatórios encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), documentos extraídos com o usuário funcional de Alina Franco Boueres de Araújo teriam sido compartilhados por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A PF ainda não concluiu se a servidora forneceu voluntariamente seus dados de acesso, se as credenciais foram utilizadas sem o conhecimento dela ou se a conta profissional foi invadida. O relatório, portanto, não atribui participação consciente à titular do login.

Conta teria consultado processos em diferentes estados

As informações surgiram durante a análise das conversas entre Vorcaro e Mourão. Conforme os investigadores, o usuário vinculado à servidora aparece repetidamente em consultas a procedimentos abertos em diferentes unidades do MPF, inclusive aqueles classificados como sigilosos.

Os documentos acessados envolviam investigações relacionadas ao próprio Vorcaro e aos empresários Nelson Tanure, Maurício Quadrado e Vladimir Joelsas Timmerman, fundador da gestora Esh Capital e responsável por denúncias públicas contra o Banco Master.

“Documentos compartilhados por Mourão foram gerados pela usuária Alina Boueres, sendo relevante observar que há recorrência na utilização de seu usuário para consulta de processos, inclusive sigilosos, no âmbito do Ministério Público Federal”, registrou a Polícia Federal.

Procedimento foi enviado a Vorcaro dois dias após abertura

Um dos episódios destacados no relatório ocorreu em julho de 2024. Naquele período, dois funcionários da Caixa Econômica Federal haviam sido demitidos depois de se posicionarem contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras emitidas pelo Banco Master.

O caso motivou uma representação protocolada no MPF do Distrito Federal em 16 de julho. Dois dias depois, segundo a investigação, Mourão teria encaminhado a Vorcaro a íntegra do procedimento.

A PF identificou que o extrato processual havia sido gerado pela conta funcional associada à servidora lotada no Maranhão.

“Essa informação reforça a necessidade de averiguação, tendo em vista a possível circulação indevida de dados protegidos por sigilo”, destacou a equipe responsável pela apuração.

Servidor do Rio Grande do Sul também é citado

Outro login analisado pertence a Daniel Souza Iost, servidor do MPF no Rio Grande do Sul. A conta teria sido usada, também em julho de 2024, para consultar 15 documentos relacionados a Vorcaro, dos quais 11 estavam sob sigilo.

Segundo a PF, o arquivo enviado a Mourão apresentava uma marca branca sobre a área onde apareciam o nome e o setor do servidor. Os dados, entretanto, permaneceram no documento e puderam ser recuperados pelos investigadores.

Para a equipe policial, o recurso pode indicar uma tentativa de ocultar a identidade de quem realizou a consulta. A participação do servidor, assim como as circunstâncias dos acessos, ainda deverá ser aprofundada durante a investigação.

As mesmas credenciais teriam sido usadas para consultar procedimentos referentes à tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

Grupo é suspeito de monitorar desafetos

Mourão e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva são apontados como integrantes de um grupo conhecido como “A Turma”. Conforme a investigação, o núcleo atuaria na obtenção de informações, no monitoramento e na intimidação de pessoas consideradas adversárias de Vorcaro.

A lista de possíveis alvos incluiria desde prestadores de serviços até um gestor de investimentos que havia denunciado supostas irregularidades envolvendo o Banco Master.

A PF avalia que os episódios revelam um possível padrão de obtenção e compartilhamento indevido de informações reservadas, capaz de comprometer o sigilo institucional e a integridade das investigações.

Documentos tiveram sigilo retirado

Os relatórios vieram a público depois que o presidente do STF, Edson Fachin, solicitou a abertura dos processos relacionados ao caso Master. O ministro André Mendonça, relator das apurações, retirou o sigilo de parte do material nessa quinta-feira (10).

O MPF informou por meio de nota que servidora citada no caso Master foi vítima de phishing.

“O Ministério Público Federal (MPF) foi informado pela Polícia Federal (PF), em 2025, sobre o possível uso indevido de credenciais de servidores do órgão por investigados no caso Master. Uma apuração interna realizada pelo MPF concluiu que a servidora Alina Franco Boueres de Araújo foi vítima de phishing. Foram tomadas todas as providências necessárias para bloquear os acessos indevidos e evitar novos ataques”.