Um relatório de aproximadamente 200 páginas elaborado pela Polícia Federal (PF) detalha conexões entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atualmente investigado pela corporação. O documento foi entregue pessoalmente ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, na última segunda-feira (9).
O material reúne registros de telefonemas entre Toffoli e Vorcaro, o envio de um convite para uma festa de aniversário do ministro e conversas do empresário com terceiros envolvendo pagamentos ligados ao resort Tayayá, empreendimento da família Toffoli. O teor do relatório tem sido descrito por integrantes da Corte como “nitroglicerina pura”, dada a sensibilidade das informações.
Fachin solicitou explicações formais a Toffoli e deverá decidir sobre eventual suspeição do ministro, que atualmente é relator das investigações envolvendo o Banco Master no Supremo.
Conteúdo do relatório
Embora o relatório não peça explicitamente o afastamento de Toffoli da relatoria, a PF elenca elementos que, na avaliação de investigadores, indicariam possível impedimento para que o ministro permaneça à frente do caso ou participe do julgamento no plenário.
Interlocutores de Toffoli, no entanto, afirmam que o material não traria elementos substanciais além do envio de um convite de aniversário que não teria sido respondido e quatro ligações telefônicas.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, o próprio ministro teria admitido a pessoas próximas que recebeu valores da empresa Maridt, responsável pelo resort Tayayá, mas sustenta que os repasses seriam regulares. Toffoli afirma ser sócio da empresa junto com seus irmãos, José Carlos e José Eugênio, informação que até então não era de conhecimento público.
Transações e relação com familiares de Vorcaro
O relatório também destaca a venda, em 2021, da participação da Maridt para um fundo administrado por familiares de Daniel Vorcaro. Entre os nomes citados está o pastor Fabiano Zettel, cunhado do empresário e apontado pelos investigadores como um de seus principais operadores.
Zettel aparece como interlocutor frequente de Vorcaro, e o resort Tayayá seria um dos assuntos discutidos entre eles.
Em nota oficial, Toffoli classificou o conteúdo do relatório como “ilações” e argumentou que a Polícia Federal não teria legitimidade para requerer sua suspeição, por não ser parte no processo. Segundo ele, a resposta formal será apresentada ao presidente da Corte.
Histórico de decisões controversas
Antes mesmo da divulgação do relatório, Toffoli já enfrentava pressão interna para deixar a relatoria do caso Banco Master. Desde que assumiu o processo — após pedido da defesa de Vorcaro para que o caso fosse remetido ao STF devido à menção ao deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), que possui foro privilegiado — o ministro tomou decisões consideradas controversas por investigadores.
Entre elas, a decretação de sigilo da investigação e a centralização da custódia das provas no Supremo, além da determinação de que as oitivas fossem realizadas na Corte, e não na sede da PF.
Também gerou questionamentos o fato de Toffoli ter viajado a Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores de 2025, em aeronave pertencente ao empresário Luiz Pastore, acompanhado do advogado de um diretor do Banco Master. Pastore já havia sido filmado visitando o ministro no resort Tayayá, ao lado do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual.
Conflitos com a Polícia Federal
O ministro ainda acusou publicamente a PF de “inércia” e “falta de empenho” ao deflagrar a segunda fase da Operação Compliance Zero um dia após o prazo estipulado. A corporação alegou que precisou confirmar endereços antes de cumprir as diligências.
Outras decisões também ampliaram o desgaste: inicialmente, Toffoli restringiu o acesso da PF ao material apreendido na operação; depois autorizou o acesso do Ministério Público Federal; por fim, liberou a perícia da PF, mas limitando-a a quatro agentes indicados por ele.
Mais recentemente, o ministro determinou a apresentação de novo cronograma de depoimentos e reduziu de seis para dois dias o prazo para realização das oitivas, medida considerada exígua por integrantes da corporação.
Próximos desdobramentos
O presidente do STF, Edson Fachin, deverá decidir se há fundamento para declarar a suspeição de Dias Toffoli no caso envolvendo o Banco Master. A decisão pode ter impacto direto na condução das investigações e na estabilidade institucional da Corte.
Enquanto isso, o conteúdo do relatório segue sob análise e mantém elevada a tensão nos bastidores do Supremo.
Com informações de Malu Gaspar






