Startup maranhense usa IA para ampliar acolhimento em saúde mental

Ferramenta realiza escuta inicial pelo WhatsApp e orienta usuários na busca por atendimento especializado.
Startup maranhense usa inteligência artificial para ampliar acolhimento em saúde mental
Startup maranhense Dayaht utiliza inteligência artificial pelo WhatsApp (Foto: Divulgação)

O avanço do ecossistema de inovação tem estimulado o surgimento de negócios que utilizam a tecnologia para enfrentar problemas sociais e econômicos no Maranhão. O estado possui atualmente cerca de 471 startups mapeadas pelo Observatório Sebrae Startups. Entre elas está a Dayaht, empresa fundada em São Luís com foco no acolhimento emocional por meio da inteligência artificial.

Criada em 2021 pela cientista de dados Samira Nogueira, a startup desenvolveu a Dayana, uma ferramenta que utiliza uma interface semelhante à do WhatsApp para realizar uma primeira escuta e orientar pessoas que apresentam sinais de sofrimento emocional.

A tecnologia foi construída a partir de estudos relacionados à saúde mental, ao comportamento e às questões de gênero. Segundo a empresa, durante a conversa, o sistema busca reconhecer indícios associados a ansiedade, depressão, estresse, violência doméstica, violência contra a mulher e risco de suicídio.

A plataforma não realiza diagnóstico nem substitui psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. A proposta é funcionar como uma porta de entrada, oferecendo acolhimento inicial e indicando a necessidade de atendimento especializado.

“Nossa inteligência artificial foi desenhada para acolher. Ela possui uma personalidade, um tom de voz e uma estrutura pensados para oferecer uma primeira escuta responsável. A tecnologia não substitui o profissional de saúde, mas pode ser uma porta de entrada importante para quem precisa de ajuda”, explica Samira.

Ferramenta foi criada pela cientista de dados Samira Nogueira (Foto: Divulgação)

Experiência pessoal inspirou criação da startup

Natural de São Luís e formada inicialmente em Relações Públicas, Samira decidiu ingressar na área de Ciência de Dados depois de realizar um intercâmbio na Irlanda. A ideia de desenvolver uma tecnologia voltada à saúde mental surgiu durante a pandemia da Covid-19.

Em 2020, ela morava sozinha em Lisboa, Portugal, onde estudava e trabalhava. Com a adoção do lockdown e sem previsão de retornar ao Brasil, a maranhense enfrentou uma crise de ansiedade.

“Naquele dia eu tive um ataque de pânico no trabalho. Estava longe da minha família, morava sozinha e precisei aprender a cuidar da minha saúde mental para conseguir atravessar aquele momento”, relata.

A experiência levou Samira a aprofundar os estudos sobre saúde emocional e a realizar uma formação em terapia. Ao mesmo tempo, ela começou a investigar de que maneira fatores sociais e culturais influenciam a saúde mental das mulheres brasileiras.

“Foi vivendo fora do Brasil que percebi o quanto a mulher brasileira é carregada de estereótipos. Comecei a investigar essas questões e entender como elas influenciam diretamente nossa saúde mental. Foi aí que nasceu a Dayaht”, afirma.

A proposta inicial era criar uma solução capaz de reconhecer precocemente fatores de risco para o adoecimento emocional de mulheres. Posteriormente, a startup passou a oferecer recursos destinados também ao público masculino e ao mercado corporativo.

Inteligência artificial ganha espaço entre startups maranhenses

O uso da inteligência artificial pela Dayaht acompanha uma tendência observada no ambiente de inovação do Maranhão. Conforme o Observatório Sebrae Startups, a IA está presente em 40,1% dos negócios inovadores mapeados no estado, sendo a tecnologia mais utilizada pelo setor.

No atendimento a empresas, a Dayaht acompanha indicadores relacionados à saúde emocional dos funcionários. Os dados podem subsidiar programas de prevenção, bem-estar e segurança no ambiente de trabalho.

De acordo com a startup, o tratamento das informações segue as regras da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A solução também busca auxiliar as empresas em ações relacionadas às Normas Regulamentadoras NR-1 e NR-5.

Desafios foram além do desenvolvimento tecnológico

Apesar da experiência na área de tecnologia, Samira afirma que a maior dificuldade enfrentada durante a criação da empresa não foi desenvolver a ferramenta, mas adquirir as habilidades necessárias para conduzir um negócio.

“Sou uma pessoa introvertida, sempre trabalhei com tecnologia e me sentia muito mais confortável atrás de um computador do que vendendo minha solução. Empreender exige relacionamento, negociação e comunicação, e isso foi um grande desafio para mim”, conta.

Para melhorar a desenvoltura ao apresentar o projeto e negociar com possíveis parceiros, a empreendedora investiu em capacitação e chegou a frequentar aulas de teatro.

“Percebi que precisava crescer junto com a empresa. Hoje sou uma gestora muito mais preparada porque também trabalhei meu desenvolvimento pessoal”, acrescenta.

Programas ajudaram a validar o modelo de negócio

A aproximação da Dayaht com o Sebrae ocorreu durante a primeira edição do programa Startup Nordeste. Desde então, a empresa participou de iniciativas de pré-aceleração, mentorias, capacitações, editais e missões empresariais.

Segundo Samira, a participação nos programas ajudou a validar a tecnologia, ampliar a rede de contatos e apresentar o produto a novos mercados.

“O Sebrae foi um dos primeiros parceiros da Dayaht. Recebemos apoio financeiro por meio de editais, mas também conhecimento, conexões e oportunidades que fizeram toda a diferença para o crescimento da empresa”, declara.

A empreendedora também integrou atividades empresariais em cidades como Brasília, Salvador e Lisboa. Mais recentemente, participou, na China, da missão internacional Caminhos do Sul Global, promovida pelo Sebrae Nacional em parceria com o Ministério da Igualdade Racial e o BRICS.

Para a gestora estadual de Startups do Sebrae, Danielle Abreu, o desenvolvimento da Dayaht mostra como negócios locais podem criar soluções destinadas a problemas enfrentados em diferentes regiões do país.

“A Samira iniciou essa jornada no Startup Nordeste, onde estruturou seu modelo de negócio, validou sua solução e se conectou ao ecossistema de inovação. A trajetória da Dayaht demonstra que, quando há talento, preparação e um ambiente favorável ao empreendedorismo, o Maranhão é capaz de desenvolver soluções inovadoras para desafios reais da sociedade”, avalia.

Startup é selecionada para o Laboratório SUS Digital

A Dayaht também foi selecionada para participar do Laboratório SUS Digital, iniciativa do Ministério da Saúde destinada ao desenvolvimento de tecnologias que possam ampliar e qualificar os serviços oferecidos pela rede pública.

O projeto prevê a utilização da Dayana para prestar acolhimento emocional inicial e encaminhar os usuários aos equipamentos adequados, entre eles os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS).

Para Samira, a seleção representa um reconhecimento do potencial da ferramenta e abre caminho para que a tecnologia alcance um número maior de pessoas.

“A aprovação pelo Ministério da Saúde demonstra que estamos desenvolvendo uma tecnologia séria, segura e com potencial para ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental. Nosso propósito sempre foi utilizar a inteligência artificial para cuidar das pessoas”, conclui.

Com informações da Ascom Sebrae