Testemunhas de Jeová flexibilizam uso do próprio sangue em tratamentos

Nova orientação mantém veto a transfusões de terceiros, mas amplia autonomia dos fiéis em decisões clínicas.
Testemunhas de Jeová flexibilizam uso do próprio sangue em tratamentos
Testemunhas de Jeová atualizam política e passam a permitir uso do próprio sangue em procedimentos médicos (Foto: EPA - via BBC)

As Testemunhas de Jeová anunciaram uma atualização em sua política sobre o uso de sangue em tratamentos médicos, permitindo que seus fiéis utilizem o próprio sangue em procedimentos clínicos. A mudança abre espaço para práticas como a retirada, armazenamento e reinfusão do sangue do próprio paciente em cirurgias previamente programadas.

Apesar da flexibilização, a orientação mantém a proibição de transfusões com sangue de outras pessoas, prática historicamente rejeitada pelo grupo com base em interpretações bíblicas. Segundo líderes religiosos, a nova diretriz não altera o princípio central da doutrina, que considera o sangue sagrado.

O anúncio foi feito por Gerrit Losch, integrante da liderança mundial do movimento, que destacou que cada fiel deve decidir individualmente sobre o uso do próprio sangue em cuidados médicos e cirúrgicos. A declaração reforça a ideia de responsabilidade pessoal dentro dos limites estabelecidos pela crença.

Com cerca de nove milhões de seguidores no mundo, sendo aproximadamente 900 mil no Brasil, as Testemunhas de Jeová são conhecidas por sua atuação religiosa e pela recusa a transfusões de sangue, prática fundamentada em passagens do Antigo e do Novo Testamento que, segundo a interpretação do grupo, orientam a abstenção do sangue.

A mudança, no entanto, gerou críticas de ex-integrantes, que consideram a flexibilização insuficiente. Eles argumentam que, em situações de emergência ou em tratamentos complexos, como em alguns tipos de câncer, a restrição ao uso de sangue de terceiros pode limitar opções médicas potencialmente decisivas para salvar vidas.

Casos judiciais também têm colocado o tema em debate. Em dezembro do ano passado, um tribunal na Escócia autorizou que médicos realizassem transfusão de sangue em uma adolescente de 14 anos, mesmo diante da recusa baseada em crença religiosa. A decisão considerou a preservação da vida como prioridade, levando em conta, mas não de forma absoluta, a posição da paciente.

A atualização da política reacende discussões sobre autonomia religiosa, limites éticos e decisões médicas em contextos de risco, especialmente quando envolvem menores de idade ou situações de emergência.

Com informações de Olivia Ireland