O Ministério Público de Contas do Maranhão (MPC-MA) pediu ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA) a realização de uma auditoria especial na gestão das três Unidades de Terapia Intensiva pediátricas do Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís.
A representação concentra-se no contrato firmado pela Prefeitura de São Luís com o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED), responsável pelas UTIs desde outubro de 2025. O MPC também solicita que a Secretaria Municipal de Saúde (Semus) apresente, no prazo de 48 horas, um plano emergencial para assegurar a continuidade, a segurança e a humanização do atendimento.
O documento foi assinado pelo procurador-geral de contas, Douglas Paulo da Silva, e pelos procuradores Jairo Cavalcanti Vieira e Paulo Henrique Araújo dos Reis. O pedido foi encaminhado ao conselheiro Marcelo Tavares Silva, relator das contas municipais referentes ao exercício de 2026.
Gestores e empresa devem prestar esclarecimentos
O MPC solicita que sejam chamados a se manifestar a prefeita Esmênia Miranda, a secretária municipal de Saúde, Ana Carolina Marques Mitri da Costa, o diretor-geral do Hospital da Criança e representantes do IBMED.
Entre os documentos requisitados estão a íntegra do processo de contratação, os nomes e as escalas dos profissionais que atuam nas UTIs, os mapas diários de ocupação dos leitos e o inventário de medicamentos e equipamentos.
O órgão também quer analisar notas fiscais relacionadas à execução do contrato e relatórios produzidos pela Comissão de Revisão de Óbitos, pelo Núcleo de Segurança do Paciente e pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.
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Relatos apontam redução nos plantões
Conforme informações reunidas na representação, as três UTIs pediátricas contavam com aproximadamente 53 médicos antes da chegada do IBMED. Após a mudança, profissionais teriam relatado uma diminuição expressiva no quadro, com plantões nos quais apenas três médicos atendiam simultaneamente as unidades.
O MPC identificou ainda uma possível incompatibilidade entre o Estudo Técnico Preliminar e o edital utilizado na contratação. A divergência estaria relacionada ao número de profissionais exigidos e à estrutura de coordenação técnica das UTIs.
Essas informações deverão ser verificadas durante a eventual auditoria, caso o pedido seja acolhido pelo Tribunal de Contas.
Formação dos profissionais será verificada
A representação também menciona indícios de que parte dos médicos disponibilizados pela empresa não teria qualificação específica para trabalhar em terapia intensiva pediátrica.
A apuração solicitada deverá conferir a formação acadêmica, as especializações, a regularidade dos registros profissionais e a experiência das equipes. Também será analisado se as habilitações apresentadas são compatíveis com as funções exercidas dentro da unidade hospitalar.
Números de óbitos apresentam divergências
Outro ponto central do pedido é a diferença entre as bases de dados utilizadas para contabilizar as mortes ocorridas no Hospital da Criança.
Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DATASUS), citados pelo MPC, registram 113 mortes na unidade em 2025. Desse total, 101 teriam ocorrido nas três UTIs pediátricas. Em 2024, os mesmos setores contabilizaram 39 óbitos. A comparação indica crescimento aproximado de 159%.
Informações internas referentes ao primeiro semestre de 2026 registram 65 mortes, das quais 53 nas UTIs. Esse resultado representaria alta de 38,89% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.
A Prefeitura de São Luís, no entanto, apresentou números diferentes. Segundo a administração municipal, a mortalidade global do hospital passou de 112 óbitos em 2024 para 117 em 2025, variação aproximada de 4,5%.
Para o Ministério Público de Contas, as discrepâncias precisam ser esclarecidas por uma avaliação técnica independente. O próprio órgão ressalva que os números disponíveis não permitem atribuir as mortes à mudança na gestão das UTIs ou estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Mortes de crianças integram documentação
O pedido menciona os casos de Kerliane, de 7 anos; do bebê Otto, de 9 meses; e dos gêmeos Bento e Bernardo. As mortes ganharam repercussão nos últimos meses e passaram a integrar as apurações relacionadas ao hospital.
Relatos apresentados ao MPC citam demora no atendimento, inconsistências em prescrições, falta de medicamentos e equipamentos e dificuldades na realização de procedimentos urgentes.
O órgão pondera que as alegações precisam ser confrontadas com prontuários, protocolos assistenciais, escalas de plantão e outros registros antes de qualquer conclusão sobre responsabilidades.
Caso é apurado por diferentes órgãos
Além da solicitação encaminhada ao TCE-MA, a situação do Hospital da Criança é investigada pelo Ministério Público do Maranhão, Ministério Público Federal, Defensoria Pública do Estado e Polícia Civil.
O Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS) também realiza uma auditoria extraordinária na unidade.
Embora defenda medidas urgentes, o MPC alerta que uma eventual suspensão do contrato, troca da empresa ou redução dos leitos deverá ser acompanhada de uma análise de impacto e de um plano de transição. O objetivo é impedir que possíveis mudanças ampliem os riscos de desassistência às crianças internadas.






