Caminhos Partidos — um acerto de contas cruel com o passado

Se você busca uma história intimista, com personagens que erram, amam e lutam para se reconstruir, Caminhos Partidos vai te marcar.
Caminhos Partidos é uma história de amor, vingança e redenção (Foto: Divulgação)

Quando saímos do cemitério, naquele domingo frígido, uma nuvem baixa cobria os telhados da cidade, como se o céu quisesse nos envolver também no luto. Abel caminhava ao meu lado em silêncio, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco e os olhos baixos, evitando pisar nas poças que se formavam nas fendas do asfalto. Ele tinha essa mania desde pequeno. E ainda a tem: a de evitar poças, não a infância.

Tínhamos nos afastado do portão principal quando notei o jeito com que ele olhava para os próprios pés. Não era medo de se molhar — ele já tinha idade suficiente para saber que tênis secam —, mas uma reverência muda, quase religiosa, pelo caminho que percorríamos.

— Tá frio — ele disse, finalmente.

Assenti com a cabeça. Estava mesmo. Paradoxos do verão maranhenses, intercalando um sol virulento e brisas suaves em dias chuvosos. O vento cortava pelas ruas estreitas como uma navalha que não queria machucar, só lembrar que estava ali.

Seguimos mais alguns metros em silêncio até que perguntei:

— Você se lembra bem do seu pai? — Quis saber, calculando os cinco anos que se passaram desde o dia que Tom partiu.

— Tenho algumas lembranças — disse Abel, com calma. — Ele me contou uma história, certa vez. Era sobre uma
bicicleta. Quando ele era pequeno.

Apurei o ouvido, sem me virar, enquanto caminhávamos, e lembrei da bicicleta, quando Tom tinha pouco menos dos 15 anos de Abel.

— Disse que o senhor passou semanas juntando dinheiro. Que vendeu umas ferramentas para comprar a bicicleta. Ele disse que foi o melhor presente da vida dele.

Silêncio.

— E então? — perguntei, a voz embargada.

— Ele contou sorrindo. Só depois ficou sério. Disse que a bicicleta ficou muito tempo encostada no quarto depois que o senhor foi embora. E que ninguém podia tocar nela.

Senti o peito sacudir levemente. A memória veio sem aviso, como tudo que importa na vida. Uma frase curta, mas cheia de peso. Senti os ombros afundarem um pouco, como se a culpa morasse num lugar do corpo que eu havia esquecido.

— Vô… – Abel falou, fitando-me de esguelha –, gostaria que me contasse tudo.

Ofereci o silêncio como resposta, acompanhado de um leve sorriso em sua direção.

Ele insistiu.

—Já tenho 15 anos, vô. Eu aguento.

Concordei levemente com a cabeça, enquanto atravessávamos a Praça da Alegria, uma parte bucólica da velha São Luís. Pouco havia restado daquilo tudo.

— Eu queria que ele fosse forte. — Principiei. — Que aprendesse a se defender da vida antes que ela viesse bater. Mas, no processo, eu bati primeiro. Com palavras duras, com ausências longas. Não soube amá-lo do jeito que ele precisava. E isso… isso me dói até hoje.

Passei as mãos pelo rosto, como se tentasse apagar da pele o tempo perdido. Depois voltei a falar, olhando um ponto qualquer da praça.

— Teu pai era diferente. Ele tinha um jeito sensível, meio artista, meio sonhador. Escrevia poemas escondido, rabiscava ideias em cadernos que ninguém podia ver. Eu descobri um desses cadernos uma vez… e ao invés de me orgulhar, eu briguei com ele. Disse que aquilo não era vida de homem. Eu bebia, Abel, era muito bruto. Não deve ser difícil imaginar a razão de sua avó ter morrido cedo demais. Desilusão também mata. Então, ele virou um jogador. Alguém que jogava de todas as formas, seja por dinheiro ou pela vida.

Fiz uma pausa longa, e logo em seguida continuei.

— Depois disso, ele se fechou. Criou um mundo só dele, onde eu não tinha lugar. E eu… em vez de tentar entrar, me afastei mais ainda. Eu fui embora, mesmo sabendo que iria quebrar a cara. Era como se tudo aquilo fosse um presságio de anos turbulentos pela frente.

Abel sentiu o peso daquelas palavras, como se herdasse um pedaço da dor que eu carregava.

— E então? — perguntou, com voz baixa. — O que aconteceu depois?

Fechei os olhos por um instante. Quando abri, havia algo novo: não esperança, mas um tipo de alívio.
Pela primeira vez em muito tempo, duas gerações se encontravam não no que sabiam, mas no que estavam dispostas a descobrir.

— Sua avó adoeceu, e eu voltei. Algum tempo depois, ela se foi, e eu, de uma forma ou de outra, também. Certo dia, Tom falou sobre um trabalho que precisaria fazer em Imperatriz. Eu estava derrotado na cama. — Admiti, observando Abel se inclinar para visualizar meu rosto.

Lembrei bem daquele dia. Chovia. Havia passado a noite chovendo. Chuva persistente e tempo úmido. O vento assovia pelas frestas e dobra das janelas como se gritasse. Abri os olhos, mas não me movia. Encarei o teto como se esperasse que o mundo desabasse de vez. O corpo estava rígido, coberto até a cabeça. Escutei passos. Tom entrou.

Parou diante da cama e me observou por alguns instantes. Suspirou. A casa estava fria, úmida. Senti o cheiro da madeira antiga, da lã do cobertor pesado, do desânimo impregnado nos cantos.

— Pai — disse, numa voz quase baixa demais.

Não respondi.

 — Trouxe café.

Não me mexi. Tom se sentou na beira da cama. O silêncio entre nós pesava mais que o inverno. Por fim, virei o rosto.

— Você viu a sua mãe?

Tom não esperava a pergunta. Hesitou.

O silêncio retorna, mas agora tem outro peso, como se alguma trava tivesse cedido.

— Não me sentia tão frágil desde a morte da sua avó. Não por fora — o corpo sempre foi pequeno, dobrado. Mas por dentro, agora, há rachaduras expostas.

Nunca ousei duvidar. Abel e seu olhar venturoso. As turbulências da vida não foram capazes de danificá-lo.
Palavras ao vento não o convenceriam. Ele precisava conhecer a verdade. A hora se aproximava.

– Não se preocupe. Já disse que aguento – insistiu, altivo, indócil e categórico.

Passei a mão em seus cabelos, emaranhando-os, resolvi sentar em um daqueles bancos de madeira que o tempo se encarregou de humilhar.

Descansei um pouco. Não com o alívio de quem repousa, mas com o cansaço de quem carrega lembranças pesadas demais para continuar em pé.

As folhas secas riscavam o chão com um som de saudade. A praça estava vazia, como se esperasse que a gente a preenchesse com alguma lembrança.

— Ele gostava daqui? — Abel quis saber.

— Gostava. Foi aqui que ele deu os primeiros passos. Tua avó se sentava com ele em um banco como esse, e eu ficava ali, naquele canteiro, fingindo que lia o jornal. Mas na verdade, só olhava pra ele.

Abel sorriu. Um sorriso pequeno, desses que só abrem uma fresta no rosto, mas clareiam tudo por dentro.

— O Tom era teu pai, mas antes disso, foi meu menino. Um menino bonito, de olhos que perguntavam mais do que a boca conseguia. Ele cresceu rápido, como se tivesse pressa de sair do mundo que a gente podia oferecer pra ele. Desde pequeno, parecia saber que não se encaixava nas molduras que eu tentava impor.

Abel escutava em silêncio. Não era o silêncio do vazio, mas o da escuta verdadeira, que entende que certas histórias precisam de espaço para respirar.

Um prólogo intricado para um relato complexo. Só desejei encontrar as palavras certas…


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