O Grupo Casas Bahia protocolou na Justiça de São Paulo um pedido de recuperação judicial para renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. A medida foi anunciada na noite desse domingo (16) e abrange a companhia e outras nove empresas ligadas à operação.
O pedido foi apresentado à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo. A decisão de recorrer ao processo foi aprovada pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador, mas ainda deverá ser ratificada em Assembleia Geral Extraordinária.
A recuperação judicial permite que uma empresa em dificuldade financeira apresente, sob supervisão da Justiça, um plano para reorganizar suas obrigações. O mecanismo não representa falência e busca preservar as atividades, os empregos e o pagamento ordenado dos credores.
Lojas e vendas pela internet devem continuar
Segundo a Casas Bahia, as lojas físicas, a plataforma de comércio eletrônico e os demais canais de venda continuarão operando durante o processo, sem interrupções relevantes no atendimento aos consumidores.
A companhia informou que o pedido se tornou necessário após o agravamento da restrição de liquidez. Entre os fatores citados estão os juros elevados, o encarecimento do crédito, a pressão sobre o capital de giro e o enfraquecimento do consumo.
O grupo também tentou realizar operações de captação para reforçar o caixa. Entre o fim de 2025 e o primeiro semestre de 2026, representantes da empresa se reuniram com potenciais investidores no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.
Uma operação com investidores internacionais, considerada importante para o planejamento financeiro, não avançou após a desistência do investidor principal. Alternativas como empréstimos-ponte e novas linhas de crédito também não foram concluídas nas condições esperadas.
Em comunicado, a empresa afirmou que a recuperação judicial pretende garantir a continuidade das atividades e buscar uma solução organizada para suas obrigações. A companhia informou ao mercado que manterá as operações nos canais existentes.
Grupo já renegociou dívidas em 2024
Esta não é a primeira tentativa de reestruturação financeira da Casas Bahia. Em 2024, a varejista concluiu uma recuperação extrajudicial envolvendo cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com instituições financeiras.
Na ocasião, a estratégia era alongar os vencimentos, reduzir os custos financeiros e ganhar tempo para recuperar a geração de caixa. A companhia, contudo, afirma que a manutenção dos juros elevados e a maior dificuldade de acesso ao crédito reduziram os efeitos esperados daquela renegociação.
A principal diferença é que a recuperação extrajudicial depende de acordos negociados diretamente com grupos de credores, enquanto a recuperação judicial tramita no Judiciário e pode abranger uma estrutura mais ampla de débitos.
Prejuízo chegou a R$ 10,1 bilhões
O pedido foi protocolado após a divulgação do balanço do segundo trimestre de 2026. Entre abril e junho, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões.
Desse total, R$ 9,1 bilhões correspondem a efeitos extraordinários e não recorrentes, sem impacto imediato no caixa. Os ajustes envolveram a revisão de créditos tributários, a redução do valor contábil de ativos, provisões para obrigações contratuais e despesas relacionadas à reestruturação.
Sem esses efeitos, o prejuízo ajustado foi de R$ 978 milhões. No mesmo período de 2025, a empresa havia registrado resultado negativo de R$ 555 milhões.
Apesar da perda, a receita líquida cresceu 1,6% e alcançou aproximadamente R$ 6,98 bilhões. As vendas realizadas diretamente pelos canais digitais avançaram 15,3%, chegando a R$ 2,8 bilhões. Os dados constam no balanço do segundo trimestre.
Plano levou ao fechamento de 298 lojas
A recuperação judicial faz parte da segunda etapa do Plano de Transformação iniciado em 2023. O objetivo declarado é reduzir custos, concentrar recursos nas operações mais rentáveis e tornar o negócio capaz de financiar as próprias atividades.
Como parte da estratégia, o grupo fechou 298 lojas consideradas pouco rentáveis, reduziu estoques, revisou contratos e diminuiu despesas. A empresa também passou a priorizar categorias e canais com maior margem de retorno.
A companhia sustenta que o enxugamento da rede deverá melhorar a rentabilidade das unidades remanescentes e fortalecer a geração de caixa. O processo, entretanto, também provocou desligamentos e reduziu significativamente a presença física da varejista em algumas regiões.
Dez empresas estão incluídas no processo
Além do Grupo Casas Bahia S.A., o pedido abrange nove empresas responsáveis por operações de comércio eletrônico, tecnologia, logística, serviços e fabricação de móveis:
- ASAP Log — Logística e Soluções Ltda.;
- ASAP Log Ltda.;
- CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística Ltda.;
- Cntlog Express Logística e Transporte Ltda.;
- Globex Administração e Serviços Ltda.;
- Cnova Comércio Eletrônico S.A.;
- Integra Soluções para Varejo Digital Ltda.;
- Casas Bahia Tecnologia Ltda.;
- Indústria de Móveis Bartira Ltda.
Após a análise inicial do pedido, a Justiça poderá autorizar o processamento da recuperação. Caso isso ocorra, o grupo terá de apresentar um plano com as condições propostas para pagamento e reorganização das dívidas, que será submetido aos credores.
Companhia anuncia mudanças na direção
No mesmo dia do pedido, a Casas Bahia informou alterações na alta administração. Fábio Spina deixou o cargo de vice-presidente Jurídico e Tributário, mas continuará prestando consultoria durante a reestruturação.
Sírley Lima foi escolhida para assumir a área. A executiva possui mais de 20 anos de experiência e acumula passagens por empresas como Heineken, Pernod Ricard, Souza Cruz e EY.
Os conselheiros Jackson Schneider e Rogério Calderón também deixaram seus cargos. Cláudia Quintella Woods passará a integrar o Comitê de Auditoria Estatutário, enquanto André Luiz Helmeister assumirá uma posição no Comitê de Finanças.
A companhia ainda terá de detalhar aos credores como pretende reorganizar a dívida de R$ 17,3 bilhões e financiar suas operações durante o processo.
Redação / Reuters






