Advogado é detido ao tentar entregar celular a PM investigada por morte de soldado

Júlia Natália passou de suposta vítima de sequestro a investigada após câmeras contrariarem seu depoimento.
Advogado é detido ao tentar entregar celular a PM investigada por morte de soldado
Advogado Walmir Medeiros foi preso após tentar entregar celular para a PM (Foto: Divulgação)

O advogado Walmir Medeiros, de 62 anos, foi detido na manhã desta sexta-feira (14) após tentar entregar um celular à policial militar Júlia Natália Girão Gomes, de 27 anos. Ela é investigada pela morte do soldado Raphael Sampaio da Silva, também de 27 anos, encontrado carbonizado dentro de um automóvel na última terça-feira (11), na Região Metropolitana de Fortaleza.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), o aparelho seria usado para permitir que Júlia se comunicasse com outras pessoas durante o período de custódia. O telefone foi apreendido.

A ocorrência foi encaminhada à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). O advogado assinou um Termo Circunstanciado de Ocorrência por ingressar ou facilitar a entrada não autorizada de aparelho de comunicação em estabelecimento prisional e, posteriormente, foi liberado.

Ainda conforme a SSPDS, Walmir já responde a um processo por lesão corporal dolosa no contexto da Lei Maria da Penha.

Soldado foi encontrado dentro de carro incendiado

O caso começou na manhã de terça-feira, quando uma testemunha avistou um veículo em chamas no bairro Ancuri, em Itaitinga, e acionou as autoridades.

Raphael Sampaio teve o corpo carbonizado e PM passou a ser investigada (Foto: Divulgação)

Após controlar o incêndio, o Corpo de Bombeiros encontrou um corpo dentro do automóvel. A vítima foi identificada como Raphael Sampaio, policial militar e colega de batalhão de Júlia.

Horas depois, a PM foi encontrada com as mãos amarradas ao sair de uma área de mata próxima à BR-116, no município de Aquiraz. Inicialmente, ela foi tratada como vítima de um possível sequestro relacionado à morte do soldado.

A versão apresentada por Júlia

Em depoimento, Júlia afirmou que havia encerrado o expediente por volta das 2h e pedido uma carona a Raphael. Segundo a policial, os dois foram abordados durante o trajeto por pessoas cuja quantidade ela não soube informar.

A militar relatou que foi retirada do carro pelos cabelos, amarrada e colocada no porta-malas de outro veículo. Disse ainda que permaneceu presa em uma área de mata durante toda a manhã, até conseguir sair e pedir ajuda aos moradores.

Os investigadores, porém, identificaram contradições no relato. Em um segundo depoimento, Júlia alegou não se recordar de pontos considerados relevantes, deixou de responder a algumas perguntas e exerceu o direito de permanecer em silêncio até a presença de um advogado.

Câmeras contrariam relato de sequestro

Uma gravação obtida durante as diligências mostra Júlia às 8h52 na oficina pertencente ao marido, Antoneudo Ribeiro Lima Júnior, sem amarras nas mãos. Ela aparece usando o mesmo vestido rosa com o qual foi encontrada posteriormente.

Júlia Natália, Raphael Sampaio e Antoneudo Ribeiro (Foto: Divulgação)

Outro vídeo mostra o casal deixando a filha na escola durante o período em que a policial afirmou estar presa no matagal.

Diante das imagens e das divergências nos depoimentos, Júlia deixou de ser considerada apenas vítima de sequestro e passou à condição de investigada. A Polícia Civil apura se a situação encontrada em Aquiraz teria sido forjada para afastar suspeitas sobre sua participação no crime.

Possível relacionamento é investigado

A polícia trabalha com a hipótese de que Raphael e Júlia mantinham um relacionamento extraconjugal. Durante o velório do soldado, Rosilane Sampaio, tia da vítima, afirmou que o sobrinho se relacionava com a policial.

Essa informação integra as apurações, mas a motivação do homicídio ainda não foi oficialmente esclarecida.

A Justiça converteu a prisão de Júlia em preventiva, modalidade sem prazo determinado. Antoneudo teve a prisão temporária decretada enquanto as diligências prosseguem.

Marido foi preso após buscas

Antoneudo, de 35 anos, foi preso inicialmente em flagrante por suspeita de falsificação de documento público e posse irregular de munição. Na residência dele, os policiais encontraram documentos supostamente falsos e munições dos calibres .38 e .40.

A advogada Karla Borges, responsável pela defesa, declarou que a prisão em flagrante ocorreu por causa dos materiais apreendidos, e não diretamente pelo homicídio. Ela também contestou a legalidade da detenção.

Segundo a SSPDS, Antoneudo já responde por estelionato, falsa identidade, lavagem ou ocultação de bens, participação em organização criminosa, receptação e posse irregular de arma de fogo de uso permitido.

Júlia, por sua vez, responde por estelionato, lavagem ou ocultação de bens e participação em organização criminosa. Esses registros estão relacionados a outra investigação e não representam condenações definitivas.

Investigação anterior por contas falsas

Os procedimentos anteriores contra o casal têm origem em um inquérito aberto em junho de 2025, após uma denúncia apresentada por uma empresa de transporte por aplicativo.

De acordo com a Polícia Civil, Júlia, Antoneudo e outras 11 pessoas teriam participado de um esquema de criação de contas falsas na plataforma. O homem é apontado como articulador da fraude, enquanto a policial teria fornecido dados pessoais e meios financeiros e de comunicação.

Antoneudo foi preso e indiciado em setembro de 2025 por organização criminosa, falsa identidade, lavagem de dinheiro e fraude eletrônica. Júlia foi indiciada por organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Ingresso de Júlia na Polícia Militar

A SSPDS informou que Júlia participou do concurso da Polícia Militar realizado em 2021. A investigação social foi concluída em fevereiro de 2022, sem reprovação da candidata.

Como estava grávida, ela realizou o teste físico posteriormente e foi considerada apta. Em 2024, concluiu o curso de formação e passou a integrar o efetivo da PM, na graduação de soldado, em novembro daquele ano.

Segundo a corporação, o ingresso ocorreu antes dos fatos investigados no inquérito aberto em 2025.

A apuração sobre a morte de Raphael prossegue para determinar a dinâmica do crime, sua motivação e o possível envolvimento individual de Júlia, Antoneudo e de outras pessoas.