Fantástico repercute esquema que travou Turilândia após prisão de prefeito e vereadores

Investigação aponta desvio de ao menos R$ 56 milhões, fraudes em licitações e propina generalizada no município maranhense.
Justiça decreta prisão preventiva de 8 vereadores de Turilândia na Operação Tântalo II
TJMA decreta prisão preventiva de oito vereadores de Turilândia investigados na Operação Tântalo II. (Foto: Divulgação)

Uma reportagem exibida na noite deste domingo (4) pelo Fantástico escancarou o colapso administrativo vivido pelo município de Turilândia, no interior do Maranhão, após a prisão do prefeito, de vereadores e de integrantes do alto escalão da gestão municipal.

No primeiro dia útil do ano, a sede da prefeitura estava aberta, mas praticamente vazia. Questionado pela equipe do Fantástico, um vigia confirmou o cenário de abandono. “Só tem eu mesmo”, afirmou. Situação semelhante foi encontrada na Câmara de Vereadores, onde funcionários evitaram falar com a reportagem e deixaram o prédio às pressas.

O esvaziamento é reflexo direto de uma operação do Ministério Público do Maranhão que, na semana do Natal, levou à prisão de toda a cúpula política do município. Foram detidos o prefeito Paulo Curió, a primeira-dama Eva Curió, a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e os 11 vereadores da cidade. Ao todo, 21 pessoas foram presas.

MPMA pede intervenção em Turilândia após colapso administrativo
Paulo Curió e a esposa foram transferidos para Pedrinhas (Foto: Reprodução)

Esquema estruturado de corrupção

Segundo o Ministério Público, o grupo desviou pelo menos R$ 56 milhões dos cofres públicos desde 2021, quando Paulo Curió assumiu o primeiro mandato. As investigações apontam um esquema organizado de corrupção, com uso de empresas de fachada, notas fiscais frias, pagamento de propina e fraudes sistemáticas em processos licitatórios.

De acordo com o promotor Fernando Berniz, do Gaeco, o problema era generalizado. “Um dado relevante, dito pela própria pregoeira, é que 95% das licitações daquele município eram fraudadas”, afirmou em entrevista exibida pelo Fantástico.

Áudios interceptados pela investigação revelam a naturalidade com que os desvios eram tratados. Em uma das mensagens, a pregoeira cobra do prefeito uma “recompensa” pela fraude em uma licitação, citando inclusive o pedido de uma caneta emagrecedora. Em outro trecho, ela avisa que uma licitação de estrada vicinal seria “fracassada”, conforme combinado.

Propina, luxo e dinheiro em espécie

Ainda segundo o MP, empresários envolvidos recebiam até 18% do valor dos contratos por serviços que não eram executados. Três por cento ficariam com o ex-controlador-geral do município, Wandson Barros, apontado como operador financeiro do esquema, enquanto o restante retornava ao prefeito.

Durante a operação, a polícia apreendeu grandes quantidades de dinheiro em espécie e chamou atenção para o patrimônio do casal Curió. Entre os imóveis está uma casa de alto padrão em São Luís, avaliada em cerca de R$ 3,7 milhões, que teve a porta arrombada durante a ação policial. Conforme o MP, o imóvel teria sido adquirido com dinheiro emprestado por um agiota que também atua como neurocirurgião.

Áudios também mostram o prefeito utilizando o cartão de crédito de uma empresa contratada pela prefeitura e reclamando do limite disponível. Em outra gravação, ele fala em “sobras” mensais de recursos desviados, em valores próximos a R$ 2 milhões — montante semelhante ao que, segundo a investigação, era repassado aos vereadores para garantir a omissão na fiscalização.

Fraudes começaram em posto de combustível

A origem do esquema, segundo o MP, estaria em um posto de combustíveis pertencente à ex-vice-prefeita e ao marido. No papel, a prefeitura comprava milhões em combustível; na prática, o consumo não correspondia. Desde 2021, o posto firmou 58 contratos com o município e recebeu mais de R$ 17 milhões.

O volume registrado permitiria, segundo os investigadores, que cada um dos dez veículos da prefeitura rodasse cerca de 790 quilômetros por dia — o equivalente a uma viagem diária de ida e volta entre São Luís e Porto Alegre.

Cidade pobre, poder corrompido

Enquanto os recursos públicos eram desviados, a população seguia enfrentando carências básicas. Dados do IBGE citados na reportagem indicam que três em cada quatro moradores de Turilândia vivem sem acesso adequado a esgoto. Durante as gravações, apoiadores do prefeito acompanharam a equipe do Fantástico com buzinaços e tentativas de intimidação.

Sem prefeito, vice-prefeita e vereadores em liberdade, a Justiça adotou uma medida excepcional para evitar a paralisação do município: os vereadores passaram a despachar em prisão domiciliar, com restrições severas de contato entre si. Segundo o procurador-geral de Justiça do Maranhão, Danilo de Castro, reuniões só são permitidas em caso de urgência administrativa.

Defesas e repercussão

As defesas de Paulo Curió e da primeira-dama afirmaram que ambos estão à disposição para prestar esclarecimentos e confiam no respeito às garantias constitucionais. A defesa de Wandson Barros declarou acreditar que a análise imparcial dos fatos levará ao reconhecimento de sua inocência. Os demais citados não se manifestaram.

Para o Ministério Público, o caso é emblemático. “É literalmente aviltante. O dinheiro que era para saneamento, saúde e educação estava sendo desviado para o deleite pessoal”, resumiu o promotor Fernando Berniz. Uma moradora, ouvida pelo Fantástico, sintetizou o sentimento da cidade com ironia amarga: “Muito errado. Uma cidadezinha humilde assim…”. Quando questionada sobre o que faltava aos envolvidos, respondeu sem hesitar: “Vergonha”.