Há 25 anos, Biotônico Fontoura perdeu o álcool e marcou o fim de uma era

Mudança na fórmula encerrou um capítulo da história de um dos medicamentos mais populares do país.
Há 25 anos, Biotônico Fontoura perdeu o álcool e marcou o fim de uma era
Há 25 anos, o Biotônico Fontoura deixou de conter álcool em sua fórmula por determinação da Anvisa (Foto: Reprodução)

Um dos produtos mais tradicionais da indústria farmacêutica brasileira passou por uma das maiores transformações de sua história há 25 anos. O Biotônico Fontoura, conhecido por gerações de brasileiros como um fortificante para crianças e adultos, deixou de conter álcool em sua composição após uma determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A decisão alterou a fórmula de um medicamento que, durante décadas, fez parte da rotina de milhões de famílias.

Criado em 1910 pelo farmacêutico Cândido Fontoura, o fortificante continha originalmente 9,5% de etanol, concentração semelhante à encontrada em muitos vinhos. Na época, o álcool era utilizado como solvente e conservante da fórmula, embora também fosse popularmente associado ao estímulo do apetite.

Um remédio que atravessou gerações

A história do Biotônico começou quando Cândido Fontoura desenvolveu um preparado à base de ferro, fosfatos e vinho espanhol para aliviar a sensação de fraqueza da esposa. O resultado levou o farmacêutico a comercializar o produto em sua botica, conquistando rapidamente a confiança de médicos e pacientes.

Poucos anos depois, o escritor Monteiro Lobato tornou-se um dos maiores divulgadores do medicamento. Além de sugerir o nome Biotônico Fontoura, ele incorporou o personagem Jeca Tatuzinho às campanhas publicitárias, transformando o fortificante em um fenômeno nacional e em um dos maiores cases de marketing da história brasileira.

Combate à desnutrição e às verminoses

O sucesso do produto está diretamente ligado ao contexto sanitário do Brasil no início do século XX. A desnutrição, a anemia e as verminoses eram problemas frequentes em um país com pouca infraestrutura de saneamento básico.

Naquele cenário, o Biotônico era apresentado como um aliado para recuperar a disposição física após o tratamento contra parasitas intestinais e deficiências nutricionais, tornando-se um símbolo de uma época em que os tônicos e elixires dominavam a prática farmacêutica.

Marketing ajudou a criar um ícone nacional

Ao longo das décadas, o Biotônico Fontoura extrapolou o universo dos medicamentos e entrou definitivamente na cultura popular.

Além do famoso personagem Jeca Tatuzinho, a marca distribuiu milhões de exemplares do tradicional Almanaque Fontoura, publicação que misturava informações sobre saúde, histórias em quadrinhos, passatempos e curiosidades. O produto também ficou conhecido por campanhas publicitárias marcantes e pelo jingle que atravessou gerações.

Celebridades como Pelé, Xuxa e Sandy & Junior participaram de ações promocionais da marca, reforçando sua presença no imaginário dos brasileiros.

Receita caseira virou tradição familiar

Durante muitos anos, o fortificante também ganhou espaço nas chamadas receitas caseiras. Era comum famílias misturarem Biotônico Fontoura com leite condensado e ovos crus na crença de que a combinação ajudaria crianças a ganhar peso e fortalecer o organismo.

Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que essas práticas fazem parte da memória afetiva de muitas famílias, mas não possuem respaldo científico e não são recomendadas atualmente.

Mudança da fórmula acompanhou avanços da ciência

Em 2000, a Anvisa proibiu que tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite destinados ao público infantil contivessem álcool. A medida foi adotada para reduzir possíveis riscos à saúde e evitar a exposição precoce ao etanol.

Desde então, o Biotônico passou por outras atualizações. Além da retirada do álcool, a composição recebeu novos ingredientes e, em 2021, substituiu o sulfato ferroso pelo bisglicinato ferroso, que apresenta melhor absorção pelo organismo. Também surgiram versões com sabores de uva e morango.

Embora ainda esteja presente nas farmácias, o produto deixou para trás parte da fórmula que o tornou famoso, permanecendo como um dos maiores símbolos da história da indústria farmacêutica brasileira e da memória afetiva de diferentes gerações.

Com informações da BBC