Endividamento atinge 86% das famílias de São Luís e alcança maior nível em 5 anos

Pesquisa mostra avanço acelerado das dívidas, puxado pelo cartão de crédito.
Endividamento atinge 86% das famílias de São Luís e alcança maior nível em cinco anos
Endividamento alcança 86% das famílias de São Luís em julho de 2026 (Foto: Reprodução / Agência VB)

Quase nove em cada dez famílias de São Luís tinham algum compromisso financeiro a vencer em julho de 2026. O percentual de lares endividados chegou a 86%, maior resultado registrado na capital maranhense desde junho de 2021, quando o indicador atingiu 86,2%.

Os dados pertencem à Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Maranhão (Fecomércio-MA), em parceria com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O levantamento considera como endividadas as famílias que possuem parcelas ou compromissos financeiros em modalidades como cartão de crédito, carnês, crédito pessoal, financiamento de veículos, financiamento imobiliário e cheque especial.

Isso significa que estar endividado não é, necessariamente, estar inadimplente. Uma família pode ter compras parceladas e financiamentos em andamento, mas manter todos os pagamentos dentro do prazo.

Percentual avançou quase 17 pontos em um ano

O crescimento ocorreu de maneira mais intensa nos últimos 12 meses. Em julho de 2025, 69,3% das famílias ludovicenses declaravam possuir dívidas. Um ano depois, a proporção chegou a 86%.

A diferença corresponde a 16,7 pontos percentuais. Em termos proporcionais, o número de famílias endividadas avançou aproximadamente 24% no período.

A trajetória também ganhou velocidade durante o primeiro semestre. Em janeiro de 2026, o indicador estava em 73,9%. Seis meses depois, houve aumento de 12,1 pontos percentuais.

O resultado de julho interrompe a distância que São Luís vinha mantendo dos índices observados durante a pandemia de Covid-19. O recorde da série foi registrado em março de 2021, quando 91,1% das famílias da capital possuíam algum tipo de dívida.

Nos anos seguintes, o indicador recuou e chegou a 69,1% em maio de 2025. A partir daquele momento, porém, voltou a apresentar uma trajetória de alta.

Endividamento não significa inadimplência

Apesar de 86% das famílias possuírem compromissos financeiros, a parcela que efetivamente deixou contas vencerem é consideravelmente menor.

Em julho, 28,4% dos lares de São Luís tinham dívidas ou parcelas em atraso. O índice permanece distante dos 47,9% observados no período mais crítico de 2021.

A diferença entre os dois indicadores ajuda a explicar o cenário. Enquanto o endividamento alcança qualquer família com compromissos financeiros ainda não quitados, a inadimplência envolve somente aquelas que não conseguiram pagar uma obrigação até a data do vencimento.

Na prática, os números de julho indicam que grande parte das famílias continua pagando suas parcelas, embora esteja recorrendo cada vez mais ao crédito.

Em relação ao mesmo mês de 2025, o endividamento aumentou aproximadamente 24%, enquanto a proporção de famílias com contas atrasadas apresentou crescimento bem mais moderado, de cerca de 4%.

Famílias sem condições de pagar representam 4,9%

A Peic também verifica quantas famílias inadimplentes acreditam que não conseguirão regularizar suas pendências.

Em julho, 4,9% dos lares declararam não ter condições de pagar as dívidas vencidas. Na pandemia, esse percentual chegou a 9,1%, quase o dobro do resultado atual.

O dado reforça que o cenário de 2026 ainda é diferente daquele enfrentado em 2021. Embora o volume de famílias com dívidas tenha retornado a um nível elevado, a incapacidade declarada de pagamento permanece significativamente menor.

Ainda assim, o avanço acelerado exige atenção. Caso fatores como inflação, juros, desemprego ou queda na renda se intensifiquem, parte das dívidas atualmente pagas em dia poderá se transformar em inadimplência.

Cartão de crédito concentra as dívidas

O cartão de crédito aparece como o principal compromisso financeiro dos consumidores de São Luís. A modalidade está presente em 82% das famílias endividadas.

Entre os lares com renda de até dez salários mínimos, a participação chega a 83,7%. O dado mostra que o cartão ocupa uma posição central no orçamento, especialmente entre as famílias de menor renda.

A modalidade oferece facilidade para parcelar compras e complementar despesas do mês, mas pode se tornar um problema quando não há pagamento integral da fatura. Nesse caso, o consumidor pode entrar no crédito rotativo, modalidade que costuma apresentar juros elevados.

O cartão também pode dificultar a percepção do endividamento acumulado. Pequenas compras parceladas em diferentes datas permanecem nas faturas dos meses seguintes e, somadas, passam a consumir uma parcela maior dos rendimentos.

Quase um terço da renda já está comprometido

Além do número de famílias endividadas, a pesquisa mede quanto da renda mensal é destinado ao pagamento desses compromissos.

Em julho, as famílias com dívidas usavam, em média, 29,5% dos rendimentos para quitar parcelas, financiamentos, carnês e faturas. Isso significa que praticamente três de cada dez reais recebidos já tinham destino definido antes de outras despesas domésticas.

O comprometimento próximo de 30% reduz a margem disponível para alimentação, moradia, transporte, saúde e educação. Também limita a capacidade das famílias de formar reservas para situações inesperadas.

Quanto menor a renda, maior tende a ser o impacto. Uma despesa emergencial, como o conserto de um veículo, a compra de medicamentos ou um problema residencial, pode obrigar o consumidor a recorrer novamente ao crédito.

Inflação pressiona orçamento das famílias

O crescimento das dívidas ocorre em um ambiente de aumento do custo de vida. A inflação acumulada em 12 meses em São Luís chegou a 4,87% em julho, acima dos 4,44% registrados no país.

A elevação dos preços diminui o poder de compra, especialmente quando a renda não cresce no mesmo ritmo. Com isso, famílias podem utilizar cartões, empréstimos e parcelamentos para manter o consumo de produtos e serviços básicos.

O mercado de trabalho também apresenta sinais de pressão. A taxa de desocupação na Grande São Luís passou de 6,6%, no quarto trimestre de 2025, para 7,6% no primeiro trimestre de 2026.

No mesmo intervalo, a taxa de subutilização da força de trabalho avançou de 12% para 13,4%. Esse indicador considera, além dos desempregados, pessoas que trabalham menos horas do que gostariam ou que poderiam estar disponíveis para uma ocupação.

Em todo o Maranhão, a informalidade atingiu 57,6% da população ocupada. Trabalhadores informais geralmente enfrentam maior oscilação de renda e têm menos proteção diante de períodos de baixa atividade, o que pode ampliar a necessidade de recorrer ao crédito.

Comércio cresce apesar da pressão financeira

Mesmo com o maior comprometimento do orçamento familiar, o comércio maranhense manteve resultado positivo. Dados da Pesquisa Mensal do Comércio, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o volume de vendas do varejo no estado cresceu 3,1% em junho, na comparação com o mesmo mês de 2025.

No acumulado do primeiro semestre de 2026, a alta foi de 2%. O uso mais intenso do crédito pode ter contribuído para sustentar parte desse consumo, permitindo a compra parcelada mesmo diante das pressões sobre a renda.

Para o presidente da Fecomércio-MA, Maurício Feijó, o aumento do endividamento ainda não foi acompanhado por uma deterioração equivalente da capacidade de pagamento. Entretanto, a rapidez da expansão das dívidas precisa ser monitorada.

Cenário exige atenção nos próximos meses

Os indicadores revelam uma combinação que ainda não configura o mesmo quadro observado na pandemia, mas acende um sinal de alerta.

De um lado, o percentual de famílias endividadas já se aproxima dos maiores níveis da série histórica. De outro, tanto a inadimplência quanto a proporção de consumidores sem condições de pagar continuam bem abaixo dos resultados de 2021.

O comportamento dos próximos meses dependerá da evolução da renda, do emprego, dos juros e da inflação. Se esses fatores forem desfavoráveis, o crescimento do crédito poderá avançar para um aumento mais expressivo das contas atrasadas.

Por enquanto, os dados mostram que as famílias de São Luís estão utilizando mais crédito e comprometendo uma parcela significativa da renda, mas a maioria ainda consegue manter os pagamentos dentro do prazo.