Em meio à pior crise financeira em anos, os Correios estimam precisar de R$ 2 bilhões em 2025 e R$ 5 bilhões em 2026 do Tesouro Nacional para saneamento e recomposição de caixa — condição vista internamente como necessária para viabilizar um empréstimo com bancos. A mudança no comando, com Emmanoel Schmidt Rondon aprovado pelo Conselho de Administração para a presidência, reaqueceu as tratativas por um plano de reerguimento.
O que está em jogo
- Aporte público: a direção pretende insistir com a Fazenda pela injeção de recursos. Técnicos do ministério admitem a necessidade, mas resistem: se o dinheiro entrar, a empresa pode ser classificada como estatal dependente, levando cerca de R$ 20 bilhões de despesas anuais para dentro do Orçamento da União, comprimindo outras políticas.
- Empréstimo bancário: o reforço de caixa seria usado como lastro para financiamento com o setor financeiro e pagamento de passivos prioritários.
Diagnóstico da crise
- Prejuízo crescente: o resultado negativo no 1º semestre de 2025 triplicou frente a 2024 (de R$ 1,35 bi para R$ 4,37 bi).
- Atrasos e pressão de caixa: há relatos de atrasos a fornecedores e serviços, além de dificuldades para aportes no fundo de pensão. A folha vem sendo paga em dia às custas de postergações de outras obrigações.
- Custo fixo elevado: pessoal responde por ≈60% do custo fixo; a tentativa de enxugamento patinou na gestão anterior.
O debate estratégico
- Universalização em xeque: aliados da Fazenda defendem discutir novo modelo para a obrigação de universalização do serviço postal — historicamente deficitária. A ideia é redistribuir obrigações entre outros atores do mercado, mantendo os Correios como participante do ecossistema, não o único responsável.
- Mudança de rota: no governo anterior, a estatal era preparada para privatização. A gestão atual descartou a venda, mas busca solução sustentável que una reestruturação operacional, ajuste de custos e novo desenho regulatório.
Troca de comando e arranjo político
- Novo presidente: Emmanoel Rondon, visto como perfil técnico, assume no lugar de Fabiano Silva dos Santos, que estava demissionário desde julho.
- Diretorias: o governo deve recompor a cúpula e reduzir indicações políticas ligadas ao União Brasil (partido fora da base). Duas diretorias ocupadas por mulheres — Governança e Gestão (Juliana Picoli Agatte) e Financeira (Loiane Bezerra de Macedo) — tendem a ser mantidas pelo perfil técnico.
- Evitar loteamento: a orientação da Casa Civil e da Fazenda é minimizar interferência partidária para aumentar a credibilidade do plano de socorro.
O que diz a gestão que sai
Em carta de despedida, Fabiano Silva afirmou “encerrar um ciclo” e listou ações como CEP em 10 mil comunidades, ajuda ao RS nas enchentes de 2024, investimentos de R$ 1,8 bi e prêmios institucionais. Ele não comentou críticas de desempenho. Os Correios informaram que não irão se manifestar.
Próximos passos
- Negociação com a Fazenda sobre aportes e status orçamentário.
- Plano de curto prazo para equilibrar caixa, atacar gastos rígidos e retomar credibilidade com credores.
- Discussão regulatória sobre a universalização do serviço postal e o papel da estatal no setor.
Nota da redação: a reportagem segue à disposição para publicar posicionamentos adicionais da Fazenda, da Casa Civil e de representantes dos trabalhadores.
Com informações de Geralda Doca e Thaís Barcellos






