A repercussão do edital da Prefeitura de São Luís que prevê apresentações musicais sem pagamento de cachê ganhou um novo desdobramento nesta semana e passou a mobilizar ainda mais o meio cultural da capital maranhense. Uma música atribuída ao cantor e compositor Alberto Trabulsi começou a circular em grupos de WhatsApp e redes sociais como forma de protesto contra a iniciativa lançada pela Secretaria Municipal de Turismo.
A canção ironiza o discurso de “valorização da cultura” utilizado pela gestão municipal no edital do projeto do Mirante da Cidade, que convida músicos, bandas e grupos culturais para apresentações entre junho e dezembro deste ano sem qualquer previsão de remuneração financeira.
O tema rapidamente repercutiu entre artistas independentes, produtores culturais e integrantes da cena musical de São Luís, ampliando o debate sobre precarização do trabalho artístico e políticas públicas voltadas ao setor cultural.
Edital prevê apresentações sem cachê
O edital foi lançado pela Secretaria Municipal de Turismo, comandada por Saulo Santos, com a proposta de ocupar o espaço do Mirante da Cidade com atrações culturais ao longo do segundo semestre.
Apesar de destacar no texto oficial a intenção de “contribuir para a valorização e difusão da cultura local”, o documento estabelece que as apresentações ocorrerão de forma voluntária, sem pagamento de cachê aos participantes.
Além disso, os próprios artistas deverão assumir despesas operacionais como transporte, estrutura de som, iluminação e demais custos necessários para a realização dos shows.
O modelo adotado gerou críticas imediatas de músicos e representantes do setor cultural, que passaram a questionar a ausência de contrapartida financeira em um projeto promovido pelo poder público.
Contradições no discurso também geraram críticas
Outro ponto que provocou reações no meio artístico foi a diferença entre o discurso de incentivo à produção autoral e os critérios estabelecidos no edital.
Embora a Prefeitura afirme que a proposta busca ampliar a visibilidade de artistas independentes, o documento prioriza apresentações ligadas à música popular maranhense e manifestações tradicionais da cultura local.
Nos bastidores da cena cultural de São Luís, muitos artistas avaliam que o edital transfere aos próprios músicos a responsabilidade de fortalecer a programação cultural e turística da cidade sem oferecer condições mínimas de valorização profissional.
Música virou símbolo da insatisfação
A música atribuída a Alberto Trabulsi passou a circular como uma espécie de manifestação coletiva da classe artística contra o modelo proposto pela Prefeitura.
Com tom irônico e crítico, a composição reforça o sentimento de descontentamento de parte dos músicos da capital, que enxergam no edital um reflexo das dificuldades enfrentadas historicamente pelo setor cultural em relação à remuneração e reconhecimento profissional.
A repercussão da canção ampliou o debate nas redes sociais e reacendeu discussões sobre o papel do poder público no financiamento e incentivo à produção cultural em São Luís.
Exonerações
Coincidência ou não, a forte repercussão negativa envolvendo o edital da Secretaria Municipal de Turismo de São Luís acabou sendo seguida por mudanças internas na própria pasta. Na noite desta quarta-feira (13), quatro servidores da Setur foram exonerados em meio ao desgaste provocado pela polêmica em torno das apresentações musicais sem pagamento de cachê propostas pela gestão municipal.
Nos bastidores da Prefeitura, o clima passou a ser descrito como de tensão após o caso ganhar ampla repercussão nas redes sociais e entre artistas da capital maranhense. Integrantes do setor cultural criticaram duramente o edital lançado pela Secretaria comandada por Saulo Santos, que previa apresentações voluntárias no Mirante da Cidade sem remuneração financeira aos músicos.
Os servidores exonerados são Ian Kauê Marques da Silva, Claudeilson dos Santos Coelho, Gisele Polanski França da Silva e Natasha Soares Marques de Sá. Todos eram ligados à gestão do ex-prefeito Eduardo Braide.
A leitura que circula nos corredores do Palácio La Ravardière é de que a crise interna aumentou após a reação negativa ao edital, apelidado por parte da classe artística de “edital do trabalho escravo”. O documento determinava que os próprios artistas deveriam custear despesas como transporte, som e iluminação para participar da programação cultural promovida pela Prefeitura.
Embora oficialmente as exonerações não tenham sido associadas à repercussão do caso, a sequência dos acontecimentos passou a alimentar especulações dentro da própria administração municipal sobre uma possível busca por responsáveis pelo desgaste enfrentado pela Secretaria de Turismo.






