Inundação deixa dezenas de mortos e viajantes sumidos entre Nepal e Tibet

Avalanche de gelo e rochas é investigada como possível origem da tragédia.
Inundação deixa dezenas de mortos e 384 viajantes desaparecidos na fronteira do Nepal
Inundação na fronteira do Nepal com o Tibete deixa dezenas de mortos e 384 viajantes desaparecidos (Foto: Reuters)

Uma inundação repentina devastou comunidades na fronteira do Nepal com o Tibete nesta quarta-feira (26), deixando dezenas de mortos e 384 viajantes desaparecidos. Vilarejos, pontes, estradas e instalações de usinas hidrelétricas foram arrastados pela correnteza.

O número de vítimas ainda apresenta divergências. Balanços internacionais apontam até 55 mortes nos dois lados da fronteira, enquanto a polícia nepalesa havia confirmado 19 corpos em uma contagem parcial. Outros levantamentos registravam entre 22 e 31 vítimas.

A diferença ocorre porque as equipes ainda não conseguiram alcançar todas as áreas atingidas e autoridades chinesas não divulgaram um balanço consolidado do lado tibetano. Os números devem continuar sendo atualizados durante as operações de busca.

Centenas de turistas estão sem contato

O Conselho de Turismo do Nepal informou que 384 turistas e viajantes estavam sem contato depois da inundação. A lista preliminar reúne 291 estrangeiros e 93 nepaleses.

Entre os desaparecidos estão 105 indianos, 12 britânicos, três norte-americanos e cidadãos da Malásia, África do Sul, Austrália, Holanda e Coreia do Sul.

O órgão ressaltou que a relação ainda está sendo confrontada com informações de agências de viagens, guias, hotéis e autoridades de segurança. Por isso, parte das pessoas pode estar isolada e incomunicável, sem que tenha necessariamente sido atingida diretamente pela água.

Ao menos oito trabalhadores sul-coreanos de empresas ligadas ao setor de energia também estão desaparecidos. Outros dez ficaram isolados na região, segundo informações do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul divulgadas pela Reuters.

Vilarejos foram engolidos pela correnteza

Rasuwa, distrito montanhoso com cerca de 50 mil habitantes, está entre as áreas mais afetadas. As comunidades de Syapru Besi e Timure sofreram danos severos após a rápida elevação do rio Bhote Koshi.

Imagens registradas na região mostram casas desmoronando, automóveis flutuando e uma ponte metálica sendo levada pela água. Moradores relataram que assentamentos inteiros desapareceram em poucos minutos.

“Há devastação por toda parte. Os assentamentos próximos ao rio foram completamente destruídos. Cinco dos meus parentes estão desaparecidos”, contou à Reuters a profissional de saúde Tula Bahadur BK.

O administrador distrital Narendra Pariyar orientou moradores das margens do Bhote Koshi a procurarem terrenos mais altos. O rio nasce no Tibete, atravessa o Nepal e deságua no Trishuli, que posteriormente segue em direção à Índia.

Resgate enfrenta estradas destruídas

O Exército do Nepal informou ter resgatado pelo menos 88 pessoas por meio de helicópteros. Parte delas foi encaminhada para hospitais de Katmandu, enquanto outras receberam atendimento em unidades próximas à região atingida.

As operações são dificultadas pelo nível elevado da água, pelo acúmulo de lama e pela destruição das estradas. Em alguns locais, os helicópteros não conseguiram pousar.

Pelo menos 12 aeronaves militares e particulares foram mobilizadas, além de equipes da polícia, das Forças Armadas, drones e cães farejadores, segundo o Kathmandu Post.

O primeiro-ministro Balendra Shah afirmou que policiais e militares foram enviados às áreas atingidas. O governo também determinou a retirada preventiva de moradores das regiões mais baixas.

A Índia ofereceu ajuda humanitária e colocou equipes de resgate em alerta. Os estados indianos de Bihar e Uttar Pradesh passaram a monitorar a elevação dos rios que descem do território nepalês.

Porto do Tibete também foi atingido

No lado chinês, um deslizamento alcançou o porto terrestre de Gyirong, uma das principais passagens comerciais entre o Tibete e o Nepal. Estradas, comunicações e o fornecimento de energia foram interrompidos na região de Shigatse.

A agência estatal chinesa Xinhua informou que a massa de lama e pedras teria se originado no lado nepalês e avançado em direção à passagem de fronteira. Pelo menos 574 socorristas foram mobilizados pela China.

O acesso ao local também está bloqueado por uma camada de sedimentos que chega a 1,5 metro de profundidade em alguns pontos. O presidente chinês Xi Jinping determinou a intensificação das buscas e o reforço do monitoramento para evitar novos desastres.

Causa ainda está sob investigação

A origem da inundação ainda não foi oficialmente definida. Uma das hipóteses é que um terremoto de magnitude 4,4 tenha provocado uma avalanche de gelo e rochas no rio Lhende Khola.

O tremor foi registrado cerca de sete minutos antes do momento em que câmeras de segurança flagraram a chegada da massa de lama e água. Especialistas, entretanto, afirmam que ainda não é possível estabelecer uma relação definitiva entre os dois acontecimentos.

Pesquisadores do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas avaliam que uma avalanche pode ter bloqueado temporariamente o rio. O rompimento dessa barreira natural teria liberado uma grande quantidade de água de forma repentina.

Bloqueio mantém risco de nova inundação

Parte do material acumulado permanece no curso do rio, o que gera preocupação com uma segunda enxurrada. Autoridades orientaram a retirada de moradores e turistas de margens, pontes e áreas baixas ao longo dos rios Bhote Koshi e Trishuli.

A inundação também comprometeu cerca de 430 megawatts da geração hidrelétrica do Nepal, mais de 12% da capacidade instalada do país. Usinas, linhas de transmissão e canteiros de obras foram danificados.

Em 2025, uma cheia no mesmo sistema fluvial matou nove pessoas e deixou outras 24 desaparecidas. Estudos posteriores associaram aquele episódio ao esvaziamento repentino de um lago formado sobre uma geleira no Tibete.

A região do Himalaia é particularmente vulnerável a avalanches, deslizamentos e rompimentos de lagos glaciais. O relevo íngreme, a instabilidade das encostas e o derretimento do gelo podem transformar bloqueios naturais em ondas de inundação com pouco tempo para alertas e evacuações.