A Prefeitura de São Luís decidiu suspender oficialmente o edital de credenciamento para apresentações culturais no projeto “Mirante da Cidade” após a forte repercussão negativa provocada pela proposta de shows sem pagamento de cachê para artistas locais. A decisão foi anunciada nesta quinta-feira (14) pela Secretaria Municipal de Turismo (Setur), por meio de nota pública.
O edital previa apresentações voluntárias de músicos, bandas e grupos culturais entre os meses de junho e dezembro deste ano no Mirante da Cidade, no Centro Histórico da capital. Além da ausência de remuneração, o documento também determinava que os próprios artistas arcassem com despesas de transporte, som, iluminação e estrutura operacional dos eventos.
A proposta gerou reação imediata da classe artística, produtores culturais e internautas, que passaram a questionar a falta de valorização profissional em um projeto promovido pelo poder público. Nas redes sociais, o caso chegou a ser apelidado de “Edital do Trabalho Escravo”.
Prefeitura recuou após pressão pública
Em nota, a Setur informou que a suspensão do Edital de Credenciamento nº 03/2026 ocorreu “considerando as manifestações da classe artística e da sociedade civil”.
Apesar do recuo, a secretaria afirmou que mantém compromisso com a valorização da cultura local e com o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao turismo e às manifestações culturais de São Luís.
O episódio rapidamente ultrapassou o debate administrativo e passou a mobilizar o meio cultural da cidade, reacendendo discussões sobre precarização do trabalho artístico, remuneração de músicos e políticas de incentivo à cultura.
Protesto virou música nas redes sociais
A crise ganhou um novo capítulo quando uma música atribuída ao cantor e compositor Alberto Trabulsi começou a circular em grupos de WhatsApp e redes sociais como forma de protesto contra o edital.
A canção ironiza justamente o discurso de “valorização da cultura” utilizado pela Prefeitura para justificar o projeto.
O conteúdo passou a ser compartilhado entre artistas independentes, produtores e integrantes da cena cultural maranhense, transformando-se em símbolo da insatisfação de parte da classe artística com o modelo proposto pela gestão municipal.
Nos bastidores do setor cultural, o entendimento predominante é de que o edital transferia aos próprios músicos a responsabilidade de movimentar a programação cultural e turística da cidade sem garantir contrapartida financeira mínima.
Exonerações ampliaram tensão dentro da Setur
Em meio à repercussão negativa, a Secretaria Municipal de Turismo também passou por mudanças internas. Na noite da última quarta-feira (13), quatro servidores da pasta foram exonerados.
Os desligamentos atingiram Ian Kauê Marques da Silva, Claudeilson dos Santos Coelho, Gisele Polanski França da Silva e Natasha Soares Marques de Sá, todos ligados a gestões anteriores da Prefeitura.
Embora a administração municipal afirme oficialmente que as exonerações fazem parte de uma “reorganização administrativa interna”, nos bastidores da Prefeitura o clima passou a ser descrito como de forte tensão após a crise envolvendo o edital.
A sequência dos acontecimentos alimentou especulações sobre uma possível tentativa de encontrar responsáveis pelo desgaste enfrentado pela Secretaria de Turismo diante da repercussão do caso.
Debate sobre valorização cultural ganhou força
A polêmica ampliou discussões já antigas dentro da cena cultural de São Luís sobre financiamento público da cultura, valorização profissional de artistas independentes e condições de trabalho oferecidas em projetos institucionais.
Para muitos músicos e produtores culturais, o episódio acabou expondo um problema estrutural, que é a dificuldade histórica de transformar políticas culturais em iniciativas que conciliem visibilidade artística e remuneração digna.






